A Prática da Minhoca | Ajahn Ñāṇarato

Publicado em Atualizado em

Texto de Ajahn Ñāṇaratodo, do Livro Folhas da Árvore Bodhi. Publicações Sumedhārāma

O venerável Ajahn Chah, um dos mais conhecidos professores do Budismo da Tradição da Floresta da Tailândia, costumava dizer: “A nossa prática é como a minhoca”. O que significa isto?

No mundo moderno queremos obter resultados o mais rapidamente possível, fazendo juízos acerca de quão eficientes as coisas são, quão bem-feitas, quão atraentes, etc. Existe uma constante pressão para se estar actualizado com os últimos avanços e temer ser deixado para trás. Mas será que temos realmente força e confiança em nós próprios? Não será que estamos a perder a nossa confiança e integridade ainda que acreditemos que estamos a controlar o “nosso mundo”? Enquanto o chamado desenvolvimento ao nível material é tão invasivo e amplamente disseminado por toda a parte, o que é que tem vindo a acontecer connosco, afinal o Ser mais importante no meio de tudo isto?

Temos que correr para obter resultados e alcançar o mesmo lugar que todos as outras pessoas, da forma mais rápida possível; esta é uma percepção que toda a gente tem. Mas poderemos assim manter o nosso espaço interior para perceber a beleza, a dor e as possibilidades dos outros? Estas questões deveriam ser levadas em consideração quando sinceramente procuramos a paz, o viver pacificamente no meio da diversidade, e dentro deste contexto penso que a paciência é uma das qualidades chaves que necessitamos de reconhecer mais conscientemente. No Pāṭimokkha Ovāda, o conjunto de versos que sumariza os ensinamentos do Buddha, Khanti (Paciência) é a qualidade por excelência da prática religiosa. Muitas vezes vemos a paciência como antiquada e parece ser o oposto de estarmos actualizados com o desenvolvimento do mundo.

A meu ver a qualidade ou virtude da paciência é essencial para que vivamos juntos pacificamente. Sabemos que ser impaciente muitas vezes bloqueia ou até mesmo destrói esse processo precioso, quer na nossa vida individual quer em sociedade. Khanti leva-nos a realizar sabedoria e compaixão, prevenindo-nos de cair em padrões egocêntricos.

Como é que somos quando estamos pacientes? Qual é o estado do nosso corpo e da nossa mente? É simplesmente negativo ou passivo? Não será esse, na realidade, o momento de nos nutrirmos e de retomarmos a nossa própria força?

No passado mês de Novembro tive a oportunidade de viajar pelo Butão durante dezasseis dias. Desde o início que notei que havia um forte sentimento de calma, um certo “à vontade” – esta expressão ressoava particularmente em mim. Ainda que outros países possam ter cenários mais espectaculares e vistas fantásticas que captem o olhar, o Butão destaca-se por oferecer este sentimento único de “à vontade”.

O modo tradicional de construção e de vestuário, grandes áreas de floresta virgem e templos com uma clara e pacífica dignidade… toda esta simplicidade mas firmeza deu-me um toque de preenchimento. A integridade auto-suficiente e a confiança estão presentes naturalmente, sem esforço. Quando contactei com este sabor de maravilhoso contentamento de estilo de vida, senti como se fosse bem-vindo na atmosfera do “à vontade”.

Depois de ter regressado à Grã – Bretanha, um amigo perguntou-me “Como era a pobreza?”. Fiz uma pequena pausa e retorqui “Sim é um país pobre”. Depois perguntei-me porque tinha feito a pausa e percebi que a questão da pobreza e da riqueza não é tão relevante ali como noutros países. A pergunta, à qual estamos tão acostumados a fazer, é ela própria uma reflexão da perspectiva através da qual olhamos o mundo.

É necessário que este ponto de vista material não seja a principal experiência da nossa vida. Se não limitarmos a maneira de saborear e de avaliar a vida, os aspectos esquecidos desta revelar-se-ão por si próprios. No Butão senti um profundo sentimento de contentamento o qual não experienciamos facilmente na sociedade moderna. Quando estamos envoltos nestes pensamentos apercebemo-nos de que a maneira como nos relacionamos com o mundo poderia ser bem mais ampla e mais rica do que na limitada esfera do bem-estar material. No Butão a riqueza vem do contentamento e confiança na vida de cada um. Não temos de passar o tempo a batalhar para provarmos a nós próprios que somos alguém e para infinitamente obtermos bens. Pelo simples facto de poder tocar esta possível perspectiva, senti um alívio.

“Esquecido”, escrevi. Esta perspectiva não é algo para se criar, mas sim algo para parar, reconhecer e apreciar.

No Butão a vida deve ser bastante exigente em termos físicos. Muitas vezes podemos avistar socalcos muito inclinados com arroz cultivado em água, desde o nível mais baixo dos estreitos vales até quase ao topo das colinas. Sem dúvida que requer uma enorme quantidade de paciência. Mas aqui a nossa percepção de paciência poderá ser limitada de forma negativa. Na verdade, quando olhamos para a vida no Butão, esta paciência traz consigo o estado de bênção. O ritmo da vida é de paciência e cada momento e cada encontro oferecem a oportunidade para Sermos, totalmente. Questões, argumentos e pensamentos sobre a ideia de paciência param e tudo é simplesmente aquilo que está a acontecer. Qualidades como a confiança, força e contentamento são então vistas juntamente com a paciência. Elas são inseparáveis. Penso que isto mostra a maravilhosa qualidade e benefício da paciência. Esta experiência no Butão foi como um relembrar do claro contraste entre aquilo a que chamamos “desenvolvimento” e a força que o Butão demonstra de uma forma sem qualquer tipo de insistência.

As palavras do Venerável Ajahn Chah “a nossa prática é como a minhoca” foram dirigidas aos monges que viviam com ele no mosteiro. Normalmente as pessoas pensam na vida na floresta como algo repleto de paz e talvez de experiências maravilhosas, mas na realidade é muitas vezes neste local que as nossas tendências mais latentes poderão manifestar-se até á exaustão. Irritação, dores, aborrecimento e por aí fora – as lutas interiores – encontram-se presentes.

Quando se vive num mosteiro há já algum tempo começa-se a apreciar o valor das palavras do Venerável Ajahn Chah. Não é uma questão de quão espertos somos ou de quão promissora era a ideia que tínhamos de início. Tentar ser como as minhocas não é ofensivo ou desencorajador, mas é uma forma de reconhecermos as nossas tendências (tão fortemente enraizadas) de buscar quaisquer resultados e recompensas, visíveis e imediatos. As minhocas têm de viver a vida pacientemente, totalmente concentradas no momento e no seu próprio esforço e movimento. Isto desafia a aparentemente fascinante ideia de conquista pessoal, a qual é a força que está por detrás do desenvolvimento, particularmente nesta era moderna. Poderemos tornar-nos minhocas? Imagine-se a resistência, todo o tipo de razões ou desculpas que podem surgir quando tentamos ser de maneira diferente. É como se a importância da pessoa fosse negada. Vivenciar o processo, humildemente rendermo-nos a ele. Paciência não é algo para ser pensado ou falado mas sim para Ser.

Ser um mendicante significa que se depende da generosidade alheia para se ter os quatro requisitos, ou seja, abrigo, comida, roupa e medicamentos. No início podemos achar que o facto de não podermos ter e escolher as coisas que gostamos é demasiado difícil e restritivo, mas depois aprendemos a familiarizarmo-nos com estas condições e eventualmente surge a alegria. O sentimento de gratidão é profundo. Estar satisfeito não é um estado passivo mas sim um estado que nos confere estabilidade, confiança e felicidade. Isto é, também, o oposto daquele que normalmente estamos no mundo. Acho que estas qualidades de contentamento e gratidão são impossíveis de realizar se não formos pacientes.

Quando somos pacientes ganhamos força interior e, ainda mais importante, somos levados a perceber que este mesmo momento é, por si só, pleno. Nada lhe falta. Não perdemos o nosso compromisso para com o imediatismo do momento presente e nem estamos na expectativa de que o verdadeiro significado da vida se torne disponível algures no futuro. Quando queremos mudar a nossa atitude da exigência para a aceitação, isto torna-se não só relevante no contexto monástico mas também no mundo em geral.

Gostaríamos que o mundo vivesse de uma forma mais harmoniosa e o ponto crucial de viragem para isso é: ou simplesmente continuamos com a atitude de obter aquilo que satisfaz os nossos desejos, livrando-nos daquilo que não se enquadra nos nossos gostos e opiniões, sem plenamente apreciarmos o que está disponível à nossa volta, ou cada um de nós poder receber em si a variedade e totalidade do mundo tal como ele é, através de, graciosa e humildemente, reaprender a virtude da paciência. Preciso de acrescentar que, a nível individual, isto significa receber diferentes tipos de emoções tais como medo, ódio, mágoa, desejo, etc.

A nossa prática, ou na verdade eu diria, a nossa vida, é como a minhoca. Concentrados no momento presente e sem ambições pelo que vem a seguir, tudo o que podemos fazer é continuar a praticar e aceitar por completo o que temos à nossa volta. Observar como estas palavras nos afectam – este é o ponto de partida.

Tradução de Appamādo Bhikkhu

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Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional. http://creativecommons.org/licenses/by- nc- nd/4.0/deed.pt

 

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