Investigue a fundo

Publicado em Atualizado em

[Áudio-Palestra] Conclusões Precipitadas | Ajahn Mudito

 

Shariputra não acreditou em Buddha

O Venerável Shariputra, um dos discípulos do Buddha, era muito astuto. Uma vez quando o Buddha estava expondo o Dharma virou-se para ele e perguntou: “Shariputra, você acredita nisso? “Shariputra respondeu: “Não, eu não acredito”. O Buddha elogiou a resposta. “Isso é muito bom, Shariputra. Você é uma pessoa dotada de sabedoria. Aquele que é sábio não acredita rapidamente; ele ouve com uma mente aberta e depois pesa a verdade dos factos antes de acreditar ou desacreditar.”

Buddha pede para Upali investigar a fundo o seu ensinamento antes de se tornar seu discípulo

«”O Abençoado esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Venerável senhor, eu busco refúgio no Abençoado, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Abençoado me aceite como discípulo leigo que buscou refúgio para o resto da vida.”

“Investigue a fundo, chefe de família. É bom que pessoas tão bem conhecidas como você investiguem a fundo.”

“Venerável senhor, eu estou ainda mais satisfeito e contente com o Abençoado por me dizer isso. Pois outros líderes de seitas, ao me obterem como seu discípulo, conduziriam uma bandeira por toda Nalanda anunciando: ‘O chefe de família Upali se tornou meu discípulo.’ Mas, ao contrário, o Abençoado me diz: ‘Investigue a fundo, chefe de família. É bom que pessoas tão bem conhecidas como você investiguem a fundo.’ Então pela segunda vez, venerável senhor, eu busco refúgio no Abençoado, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Abençoado me aceite como discípulo leigo que nele buscou refúgio para o resto da sua vida.”»

(Upali Suttaaudio_icon_2
Também no Siha Sutta o Buda insta Siha a investigar primeiro o seu ensinamento.

Palavras de Buddha para os que buscam a verdade

Trecho do livro Budismo em Poucas Palavras (Cap III. É uma religião?), por Narada Mahathera

Ainda que um Budista busque refúgio no Buddha, não há nenhuma abnegação. Tampouco um Budista sacrifica sua liberdade de pensamento convertendo-se em seguidor de Buddha. Pode exercer sua própria livre vontade e desenvolver seu conhecimento inclusive até ao ponto de tornar-se ele mesmo num Buddha.

O ponto de partida do Budismo é raciocinar ou compreender, ou, em outras palavras, Sammā-Diṭṭhi.

Aos que buscam a verdade, o Buddha lhes disse:

“Não aceiteis nada que ouviste – (i.e., porque temos ouvido deste sempre).

Não aceiteis nada por mera tradição – (i.e., porque foi transmitido assim através de muitas gerações).

Não aceiteis nada devido à mera existência de rumores – (i.e., crer no que dizem os outros sem haver comprovações).

Não aceiteis nada simplesmente porque coincide com vossa religião.

Não aceiteis nada por mera suposição.

Não aceiteis nada por mera inferência, por mera dedução.

Não aceiteis nada considerando simplesmente as razões.

Não aceiteis nada simplesmente porque está de acordo com vossas noções preconcebidas.

Não aceiteis nada simplesmente porque os pareça aceitável – (i.e., porque um orador parece bom deveria aceitar-se a sua palavra).”

“Mas quanto tiverem compreendido por vocês mesmos de que – isto é imoral, isto é indigno, isto censura a prudência ou o juízo, isto, quando se faz e se assume, leva à ruína e ao sofrimento – então, rejeite-o realmente.”

“Quando sabeis por vocês mesmos que – estas coisas são morais, são irrepreensíveis, são elogiadas por sua prudência e por seu juízo, estas coisas, quando se fazem e se assumem, conduzem ao bem-estar e à felicidade – então, que vivam agindo em conformidade.”

(Kalama Sutta)  audio_icon_2 text_icon

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“Salha, não se deixe levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, ‘Este contemplativo é o nosso mestre.’ Quando você souber por você mesmo que, ‘Essas qualidades são inábeis; essas qualidades são culpáveis; essas qualidades são passíveis de crítica pelos sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao mal e ao sofrimento’ – então você deve abandoná-las.” […]

“Salha, não se deixe levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, ‘Este contemplativo é o nosso mestre.’ Quando você souber por você mesmo que, ‘Essas qualidades são hábeis; essas qualidades são isentas de culpa; essas qualidades são elogiadas pelos sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao bem-estar e à felicidade’ – então você deve penetrar e permanecer nelas.”

(Salha Sutta)

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“Bhikkhus, um bhikkhu que é um investigador, sem saber como avaliar a mente de outrem, deveria fazer uma investigação do Tathagata para descobrir se ele é perfeitamente iluminado ou não.” (Vimamsaka Sutta)

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O primeiro amigo é a fé, a devoção, a confiança. Sem confiar, não se pode trabalhar, por permanecer agitado com dúvidas e ceticismo. Porém, se a fé for cega, será um grande inimigo. Torna-se cega se perdermos a inteligência discriminatória, o entendimento apropriado sobre o que é a devoção correta. É possível ter fé em alguma divindade ou indivíduo santificado mas, se a fé for correta, com entendimento apropriado, iremos evocar as boas qualidades desse ser e isso nos inspirará a desenvolver essas mesmas qualidades. Tal devoção é cheia de sentido e é de toda a ajuda. Mas, sem tentar desenvolver as qualidades do ser do qual se é devoto, é fé cega, que é muito perigosa.” — S. N. Goenka

“É como o exemplo da fruta amarga. Eu disse a vocês que uma certa fruta tinha gosto de amarga e convidei vocês a experimentar. Vocês teriam que comer um pedaço e experimentar o amargor. Algumas pessoas iriam acreditar na minha palavra se eu dissesse que a fruta era amarga, mas se elas simplesmente acreditassem que era amarga sem nunca experimentá-la, aquela crença seria inútil (mogha), não teria nenhum valor de significado. Se eu descrevesse a fruta como amarga, seria meramente minha percepção dela. Só isso. O Buda não pregou tal crença. Mas você também não pode simplesmente ignorá-la: investigue. Você deve experimentar a fruta por si mesmo, e ao saborear seu sabor de verdade, você se torna a própria testemunha interna. Alguém diz que a fruta é amarga, então você a pega, come e descobre que é realmente amarga. É como se você tivesse se certificando duplamente — se baseando na própria experiência e no que as pessoas dizem. Dessa maneira você pode realmente ter confiança na autenticidade do sabor amargo, você é a testemunha que atesta a verdade”.” — Ajahn Chah, Sofrendo na Estrada (Suffering on the Road)

*   *   *

Ainda que um budista não sacrifique a sua liberdade de pensamento e nem esteja refém de instituições ou mestres, isso não quer dizer que não seja importante estar ligado a alguma instituição e mestre qualificado, embora não seja uma condição absolutamente necessária.
As instituições e os mestres têm uma grande importância. Nas palavras de Genshô Sensei:

“Sempre tivemos uma natural divisão entre os que se ligam a instituição e os que seguem caminhos independentes, históricamente, no entanto, são as instituições que trouxeram o budismo até os dias de hoje, preservando os textos, transmitindo, impedindo os mais variados exageros, mas com o peso natural de suas burocracias e autoridades.
Os centros do Dharma em si, também são instituições. E vemos os benefícios de suas paredes, biblioteca e evidentemente sua organização.
Pessoalmente não vejo um bom caminho senão na vinculação com uma instituição séria, e no procurar os que foram bem formados dentro dela, minha experiência com grupos mais independentes e caóticos não foi boa, são justamente neles que se estabelecem as mais acirradas lutas por poder e a falta de diretrizes básicas acaba criando situações tristes e quebra dos preceitos.
Uma leitura caótica dos textos pode induzir a uma crença libertária sobre o budismo, no entanto os grandes mestres fundaram mosteiros, preservaram a ordem e a hierarquia e ainda escreveram muito.” [texto original]
Monge Genshô

 

Veja também:


Sobre Ajahn Mudito | Lista de Mestres e Professores

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