67 Koans Zen

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Um koan, é uma narrativa, diálogo, questão ou afirmação no budismo zen que contém aspectos que são inacessíveis à razão. Desta forma, o koan tem como objectivo, propiciar a iluminação espiritual do praticante de Budismo Zen.

1.

Um homem, viajando em um campo, encontrou um tigre. Ele correu, com o tigre em seu encalço. Aproximando-se de um precipício, tomou as raízes expostas de uma vinha selvagem em suas mãos, e pendurou-se precipitadamente abaixo, na beira do abismo. O tigre o farejava acima. Tremendo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre a esperá-lo. Apenas a vinha o sustinha. Mas, ao olhar para a planta, viu dois ratos, um negro e outro branco, roendo aos poucos a sua raiz. Neste momento, seus olhos perceberam um belo morango vicejando perto. Segurando a vinha com uma mão, ele pegou o morango com a outra e o comeu. — Que delícia! — ele disse.

 

2.

Quando um jovem estudante Zen, visitou um mestre após outro. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso: “A mente, Buddha, e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenómenos é vazia. Não há realização, nenhuma delusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber!”
Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando insultos.
“Se nada existe,” perguntou, calmo, Dokuon, “de onde veio toda esta sua raiva?”

 

3.

Um homem muito rico pediu a Sengai para escrever algo pela continuidade da prosperidade de sua família, de modo que esta pudesse manter sua fortuna de geração a geração.
Sengai pegou uma longa folha de papel de arroz e escreveu: “Pai morre, filho morre, neto morre.”
O homem rico ficou indignado e ofendido. “Eu lhe pedi para escrever algo pela felicidade de minha família! Porque fizeste uma brincadeira destas?!?”
“Não pretendi fazer brincadeiras,” explicou Sengai tranquilamente. “Se antes da sua morte seu filho morrer, isto iria magoá-lo imensamente. Se seu neto se fosse antes de seu filho, tanto você quanto ele ficariam arrasados. Mas se sua família, de geração a geração, morrer na ordem que eu escrevi, isso seria o mais natural curso da Vida. Eu chamo a isso a Verdadeira Riqueza.”

 

4.

Durante as guerras civis no Japão feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando — todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado.
Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge.
O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria.
“Seu tolo!!” ele gritou enquanto desembainhava a espada, “não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?”
Mas o mestre permaneceu completamente tranquilo.
“E você percebe,” o mestre replicou calmamente, “que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?”

 

5.

Uma noite quando Shichiri Kojun estava recitando sutras um ladrão com uma espada entrou em seu zendo, exigindo seu dinheiro ou a sua vida.
Shichiri disse-lhe:
“Não me perturbe. Você pode encontrar o dinheiro naquela gaveta.” E retomou sua recitação. Um pouco depois ele parou de novo e disse ao ladrão:
“Não pegue tudo. Eu preciso de alguma soma para pagar os impostos amanhã.”
O intruso pegou a maior parte do dinheiro e principiou a sair.
“Agradeça à pessoa quando você recebe um presente,” Shichiri acrescentou.
O homem lhe agradeceu, meio confuso, e fugiu.
Poucos dias depois o indivíduo foi preso e confessou, entre outras coisas, a ofensa contra Shichiri.
Quando Shichiri foi chamado como testemunha ele disse:
“Este homem não é ladrão, ao menos tanto quanto me diz respeito. Eu lhe dei o dinheiro e ele inclusive me agradeceu por isso.”
Após o homem ter cumprido sua pena, ele foi a Shichiri e tornou-se um de seus discípulos.

 

6.

Certa vez existiu um grande guerreiro. Ainda que muito velho, ele ainda era capaz de derrotar qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se longe e amplamente através do país e muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação.
Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que a este perdesse a concentração. Ele esperaria então que seu oponente fizesse o primeiro movimento, e assim revelando sua fraqueza, e então atacaria com uma força impiedosa e velocidade de um raio. Ninguém jamais havia resistido em um duelo contra ele além do primeiro movimento.
Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio do jovem guerreiro. Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem guerreiro começou a lançar insultos ao velho mestre. Ele jogava terra e cuspia em sua face.
Por horas ele verbalmente ofendeu o mestre com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade. Mas o velho guerreiro meramente ficou parado ali, calmamente. Finalmente, o jovem guerreiro finalmente ficou exausto. Percebendo que tinha sido derrotado, ele fugiu vergonhosamente.
Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes aproximaram-se e lhe perguntaram: “Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem ao menos se mover?”
“Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita,” o mestre replicou, “para quem retorna este presente?”

 

7.

Roshi Kapleau (um mestre Zen moderno) concordou em falar a um grupo de psicanalistas sobre Zen. Após ser apresentado ao grupo pelo diretor do instituto analítico, o Roshi quietamente sentou-se sobre uma almofada colocada sobre o chão. Um estudante entrou, prostrou-se diante do mestre, e então sentou-se em outra almofada próxima, olhando seu professor.
“O que é Zen?” o estudante perguntou. O Roshi pegou uma banana, descascou-a, e começou a comê-la.
“Isso é tudo? O senhor não pode me dizer nada mais?” o estudante disse.
“Aproxime-se, por favor.” O mestre replicou. O estudante moveu-se mais para perto e Roshi balançou o que restava da banana em frente ao rosto do outro. O estudante fez uma reverência e partiu.
Um segundo estudante levantou-se e dirigiu-se à audiência:
“Vocês todos entenderam?” Quando não houve resposta, o estudante adicionou:
“Vocês acabaram de testemunhar uma completa demonstração do Zen. Alguma questão?”
Após um longo silêncio constrangido, alguém falou.
“Roshi, eu não estou satisfeito com sua demonstração. O senhor nos mostrou algo que eu não tenho certeza de ter compreendido. DEVE existir uma maneira de nos DIZER o que é o Zen!”
“Se você insiste em usar mais palavras,” o Roshi replicou, “então Zen é ‘um elefante copulando com uma pulga…'”.

 

8.

Ryokan, um mestre Zen, vivia a mais simples e frugais das vidas em uma pequena cabana aos pés de uma montanha. Uma noite um ladrão entrou na cabana apenas para descobrir que nada havia para ser roubado.
Ryokan retornou e o surpreendeu lá.
“Você fez uma longa viagem para me visitar,” ele disse ao gatuno, “e você não deveria retornar de mãos vazias. Por favor tome minhas roupas como um presente.”
O ladrão ficou perplexo. Rindo de troça, ele tomou as roupas e esgueirou-se para fora.
Ryokan sentou-se nu, olhando a lua.
“Pobre coitado,” ele murmurou. “Gostaria de poder dar-lhe esta bela lua.”

9.

Certa vez Bodhidharma foi levado à presença do Imperador Wu, um devoto benfeitor buddhista, que ansiava receber a aprovação de sua generosidade pelo sábio. Ele perguntou ao mestre:
“Nós construímos templos, copiamos os sutras sagrados, ordenamos monges e monjas. Qual o mérito, reverenciado Senhor, da nossa conduta?”
“Nenhum mérito, em absoluto”, disse o sábio.
O Imperador, chocado e algo ofendido, pensou que tal resposta com certeza estava subvertendo todo o dogma buddhista, e tornou a perguntar:
“Então qual é o Santo Dharma, o Primeiro Princípio?”
“Um vasto Vazio, sem nada santo dentro dele”, afirmou Bodhidharma, para a surpresa do Imperador. Este ficou furioso, levantou-se e fez sua última pergunta:
“Quem és então, para ficares diante de mim como se fosses um sábio?”
“Eu não sei, Majestade”, replicou o sábio, que assim tendo dito virou-se e foi embora.

 

10.

Dois monges discutiam a respeito da bandeira do templo, que tremulava ao vento. Um deles disse:
– É a bandeira que se move.
O outro disse:
– É o vento que se move.
Trocaram ideias e não conseguiam chegar a um acordo. Então Hui-neng, o sexto patriarca, disse:
– Não é a bandeira que se move. Não é o vento que se move. É a mente dos senhores que se move.
Os dois monges ficaram perplexos.

 

11.

Aquele que passa a Porta sem porta marchará de mão dadas com toda a linhagem de Patriarcas, olhando com o mesmo olho e ouvindo com o mesmo ouvido.

 

12.

Batendo duas mãos uma na outra temos um som. Qual é o som de uma única mão?

 

13.

Quem pensa que entendeu se questiona.
Quem pensa que não entendeu questiona os outros.
Quem entendeu não diz nada.
E quem não entendeu também não diz nada!

 

14.

Antes de os teus pais terem nascido, qual era a tua natureza original?

 

15.

Qual é o som do silêncio?

 

16.

Um Mestre oferece um melão a um discípulo, e pergunta: — Que te parece o melão? Tem bom gosto?
— Sim, sim! Muito bom gosto! – responde o discípulo.
O Mestre, então, faz outra pergunta: — O que tem bom gosto: o melão ou a língua?

 

17.

Quem é você?

 

18.

Qual era o seu rosto original – aquele que você possuía antes de nascer?

 

19.

Todos os fenómenos são impermanentes. Tudo que nasce deve finalmente morrer. O que nasce e o que morre?

 

20.

Não siga o passado; não se perca no futuro. O passado não existe mais; o futuro ainda não chegou. Observando profundamente a vida como ela é, aqui e agora, é que permanecemos equilibrados e livres.

 

21.

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre o Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre as suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a chávena do seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando o chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pôde mais se conter e disse:
“Está muito cheio. Não cabe mais chá!”
“Como esta chávena,” Nan-in disse, “você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua chávena?”
Então, o Mestre Nan-in disse: — Como esta xícara, você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como eu posso lhe demonstrar o Zen sem que você primeiro esvazie a sua xícara?

 

22.

Um orgulhoso guerreiro, chamado Nobushige, foi até o Mestre Hakuin, e perguntou-lhe: — Se existe um paraíso e um inferno, onde estão?
— Quem é você? — perguntou Hakuin.
— Eu sou um samurai! — o guerreiro exclamou.
— Você? Um guerreiro? — riu-se Hakuin. — Que espécie de governante teria tal guarda? Sua aparência é a de um mendigo!
Nobushige ficou tão raivoso que começou a desembainhar sua espada, mas Hakuin continuou:
— Então, você tem uma espada! Sua arma provavelmente está tão cega que não cortará minha cabeça…
O samurai desembainhou a espada e avançou pronto para matar, gritando de ódio. Neste momento, Hakuin anunciou:
— Acaba de se abrir o Portal do Inferno!
Ao ouvir estas palavras, e percebendo a sabedoria do Mestre, o samurai embainhou sua espada, e fez-lhe uma profunda reverência.
— Acaba de se abrir o Portal do Paraíso — disse suavemente o Mestre Hakuin.

 

23.

Certa vez, o Mestre taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali. No sonho, ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa. Ele era realmente uma borboleta. Repentinamente, ele acordou, e se descobriu deitado em sua cama, uma pessoa novamente.
Mas, então, ele pensou para si mesmo:
“Antes, fui um homem que sonhava ser uma borboleta ou, agora, sou uma borboleta que sonha ser um homem?”

 

24.

Após dez anos de aprendizagem, Tenno atingiu o título de Mestre Zen. Em um dia chuvoso, ele foi visitar o famoso Mestre Nan-In. Quando ele entrou no mosteiro, o Mestre, imediatamente, recebeu-o com uma questão:
— Você deixou seus tamancos e seu guarda-chuva no alpendre?
— Sim, Mestre — respondeu Tenno.
— Então, diga-me — continuou o Mestre: — Você colocou seu guarda-chuva à esquerda de seu calçado ou à direita?
Tenno não soube responder, percebendo, afinal, que ainda não havia alcançado a plena atenção. Ele, então, se tornou aprendiz do Mestre Nan-In, e estudou sob sua orientação por mais dez anos.

 

25.

Dois peregrinos estavam perdidas no deserto. Estavam morrendo de inanição e sede. Finalmente, avistaram um alto muro. Do outro lado, podiam ouvir o som de quedas d’água e de pássaros cantando. Acima, podiam ver os galhos de uma árvore frutífera atravessando e pendendo sobre o muro. Seus frutos pareciam deliciosos. Um dos homens subiu o muro e desapareceu no outro lado. O outro, em vez disso, saciou sua fome com as frutas que sobressaíam da árvore, ali mesmo, e retornou ao deserto para ajudar outros perdidos a encontrar o caminho para o oásis.

 

26.

Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges, imediatamente, pegou-o e o colocou na margem. No processo, ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela, e, novamente, o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião, e novamente foi picado. O outro monge, então, perguntou:
— Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?
— Porque — respondeu o monge — agir com compaixão é a minha natureza.

 

27.

O monge perguntou ao Mestre:
— Como posso sair do ‘Samsara’?
O Mestre respondeu:
— Quem te colocou nele?

 

28.

O pensamento lógico não pode ser usado para obter a Compreensão; apenas com a sensibilidade da não mente alcança-se a Verdade.

 

29.

Um estudante perguntou a Joshu, “Mestre, o que é Satori?”
O mestre replicou: “Quando estiver com fome, coma. Quando estiver cansado, durma.”

 

30.

Certa vez, enquanto o velho mestre Seppo Gisen jogava bola, Gessha aproximou-se e perguntou:
“Por que é que a bola rola?”
Seppo respondeu:
“A bola é livre. É a verdadeira liberdade.”
“Por quê?”
“Porque é redonda. Rola em toda parte, seja qual for a direção, livremente. Inconsciente, natural, automaticamente.”

 

31.

Certa vez um estudante perguntou ao mestre Joshu:
– Mestre, por favor, o que é o Satori?.
Joshu respondeu-lhe:
– Terminaste a refeição?
– É claro mestre, terminei.
– Então, vai lavar as tuas tigelas!

 

32.

Durante uma conversa, o rei Milinda perguntou ao Bodhisattva Nagasena:
– Que é o Samsara?
Nagasena respondeu:
– Ó grande rei, aqui nascemos e morremos, lá nascemos e morremos, depois nascemos de novo e de novo morremos, nascemos, morremos… Ó grande rei, isso é Samsara.
Disse o rei:
– Não compreendo; por favor, explicai-me com mais clareza.
Nagasena replicou:
– É como o caroço de manga que plantamos para comer-lhe o fruto. Quando a grande árvore cresce e dá frutos, as pessoas os comem para, em seguida, plantar os caroços. E dos caroços nasce uma grande mangueira, que dá frutos. Desse modo, a mangueira não tem fim. É assim, grande rei, que nascemos aqui, morremos ali, nascemos, morremos, nascemos, morremos.
Grande rei, isso é Samsara.
Em outro Sutra, o rei Milinda pergunta ainda:
– Que é o que renasce no mundo seguinte (Depois da morte.)
Responde Nagasena:
– Depois da morte nascem o nome, o espírito e o corpo.
O rei pergunta:
– É o mesmo nome, o mesmo espírito e o mesmo corpo que nascem depois da morte?
– Não é o mesmo nome, o mesmo espirito e o mesmo corpo que nascem depois da morte.
Esse nome, esse espírito e esse corpo criam a acção. Pela acção, ou Karma, nascem outro nome, outro espírito e outro corpo.

 

33.

Finalmente, após muitos sofrimentos, Shang Kwang foi aceite por Bodhidharma como seu discípulo. O jovem então perguntou ao mestre:
“Eu não tenho paz de espírito. Gostaria de pedir, Senhor, que pacificasse minha mente.”
“Ponha sua mente aqui na minha frente e eu a pacificarei!” replicou Bodhidharma.
“Mas… é impossível que eu faça isso!” afirmou Shang Kwang.
“Então já pacifiquei a sua mente.”, conclui o sábio.

 

34.

O Imperador perguntou ao Mestre Gudo:
“O que acontece com um homem iluminado após a morte?”
“Como eu poderia saber?”, replicou Gudo.
“Porque o senhor é um mestre… não é?” respondeu o Imperador, um pouco surpreso.
“Sim Majestade,” disse Gudo suavemente, “mas ainda não sou um mestre morto.”

 

35.

Um monge perguntou ao mestre:
“Qual o significado de Dharma-Buddha?”
O mestre apontou e disse:
“O cipreste no jardim.”
O monge ficou irritado, e disse:
“Não, não! Não use parábolas aludindo a coisas concretas! Quero uma explicação intelectual clara do termo!”
“Então eu não vou usar nada concreto, e serei intelectualmente claro,” disse o mestre. O monge esperou um pouco, e vendo que o mestre não iria continuar fez a mesma pergunta:
“Então? Qual o significado de Dharma-Buddha?”
O mestre apontou e disse:
“O cipreste no jardim.”

 

36.

Um monge jovem era o responsável pelo jardim zen de um famoso templo Zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava as flores, arbustos e árvores. Próximo ao templo havia um outro templo menor onde vivia apenas um velho mestre Zen. Um dia, quando o monge estava esperando a visita de importantes convidados, ele deu uma atenção extra ao cuidado do jardim. Ele tirou as ervas daninhas, podou os arbustos, cardou o musgo, e gastou muito tempo meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente tirando as folhas secas de outono. Enquanto ele trabalhava, o velho mestre observava com interesse de cima do muro que separava os templos.
Quando terminou, o monge afastou-se um pouco para admirar seu trabalho.
“Não está lindo?” ele perguntou, feliz, para o velho monge.
“Sim,” replicou o ancião, “mas está faltando algo crucial. Me ajude a pular este muro e eu irei acertar as coisas para você.”
Após certa hesitação, o monge levantou o velho por sobre o muro e pousou-o suavemente em seu lado. Vagarosamente, o mestre caminhou para a árvore mais próxima ao centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com força. Folhas desceram suavemente à brisa e caíram por sobre todo o jardim.
“Pronto!” disse o velho monge,” agora você pode me levar de volta.”

 

37.

Certa vez, um buddhista foi às montanhas procurar um grande mestre, que segundo acreditava poderia lhe dizer a palavra definitiva sobre o sentido da Sabedoria.
Após muitos dias de dura caminhada o encontrou em um belo templo à beira de um lindo vale.
“Mestre, vim até aqui para lhe pedir uma palavra sobre o sentido do Dharma. Por favor, faça-me atravessar os Portões do Zen.”
“Diga-me,” replicou o sábio, “vindo para cá vós passastes pelo vale?”
“Sim.”
“Por acaso ouvistes o seu som?”
Um tanto incerto, o homem disse:
“Bem, ouvi o som do vento como um suave canto penetrando todo o vale.”
O sábio respondeu:
“O local onde vós ouvistes o som do vale é onde começa o caminho que leva aos Portões do
Zen. E este som é toda palavra que vós precisais ouvir sobre a Verdade.”

 

38.

Quatro monges decidiram meditar em silêncio completo, sem falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela começou a falhar e então apagou-se.
O primeiro monge disse, “Oh, não! A vela apagou-se!”
O segundo comentou, “Não tínhamos que ficar em silêncio completo?”
O terceiro reclamou, “Por que vocês dois quebraram o silêncio?”
Finalmente o quarto afirmou, todo orgulhoso, “Aha! Eu sou o único que não falou!”

 

39.

Um estudante foi ao seu professor e disse fervorosamente: “Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir a Iluminação! Quanto tempo vai demorar para eu obter este prémio e dominar este conhecimento?”
A resposta do professor foi casual: “Uns dez anos…”
Impacientemente, o estudante completou: :”Mas eu quero entender todos os segredos mais rápido do que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia, estudar e decorar todos os sutras, farei isso dez ou mais horas por dia!! Neste caso, em quanto tempo chegarei ao objetivo?”
O professor pensou um pouco e disse suavemente: “Vinte anos.”

 

40.

Quando jovem, Baso praticava incessantemente a Meditação. Certa ocasião, seu Mestre Nangaku aproximou-se dele e perguntou-lhe:
– Por que praticas tanta Meditação?
– Para me tornar um Buddha.
O Mestre tomou de uma telha e começou a esfregá-la com um pedra. Intrigado, Baso perguntou:
– O que fazeis com essa telha?
– Pretendo transformá-la num espelho.
– Mas por mais que a esfregueis, ela jamais se transformará num espelho! será sempre uma pedra.
– O mesmo posso dizer de ti. Por mais que pratiques Meditação, não te tornarás Buda.
– Então o que fazer?
– É como fazer um boi andar.
– Não entendo.
– Quando queres fazer um carro de bois andar, bates no boi ou no carro?
Baso não soube o que responder e então o Mestre continuou:
– Buscar o Estado de Buda fazendo apenas Meditação é matar o Buda. Dessa maneira, não acharás o caminho certo.

 

41.

Na China, havia um monge Zen, chamado mestre Dori, que, por fazer zazen empoleirado num pinheiro pára-sol, fora alcunhado de mestre Ninho de Passarinho Um poeta muito célebre, Sakuraten, foi visitá-lo e, ao vê-lo fazer zazen, disse-lhe:
“Tomai cuidado, que isso é perigoso; podereis, um dia, cair do pinheiro!”
“De maneira nenhuma,” respondeu mestre Dori. “Vós é que correis perigo de um dia cair.”
Sakuraten refletiu. “Com efeito, vivo dominado por paixão, é como brincar com o raio”. E perguntou ao mestre Zen:
“Qual é a verdadeira essência do budismo?”
Mestre Dori respondeu:
“Não façais nada violento, praticai somente o aquilo que é justo e equilibrado.”
“Mas até uma criança de três anos sabe disso!” exclamou o poeta.
“Sim, mas é uma coisa difícil de ser praticada até mesmo por um velho de oitenta anos…” completou o mestre.

 

42.

Certa vez, um homem encontrou Joshu, que estava atarefado em limpar o pátio do mosteiro.
Feliz com a oportunidade de falar com um grande Mestre, o homem, imaginando conseguir de Joshu respostas para a questão metafísica que lhe estava atormentando, lhe perguntou:
“Oh, Mestre! Diga-me: onde está o Caminho?”
Joshu, sem parar de varrer, respondeu solícito:
“O caminho passa ali fora, depois da cerca.”
“Mas,” replicou o homem meio confuso, “eu não me refiro a esse caminho.”
Parando seu trabalho, o Mestre olhou-o e disse:
“Então de que caminho se trata?”
O outro disse, em tom místico:
“Falo, mestre, do Grande Caminho!”
“Ahhh, esse!” sorriu Joshu. “O grande caminho segue por ali até a Capital.” E continuou a sua tarefa.

 

43.

Uma velha construiu uma cabana para um monge e o alimentou por vinte anos, como forma de adquirir méritos. Certo dia, como forma de experimentar a sabedoria adquirida pelo monge, a velha pediu à jovem mulher que levava ao monge o alimento todos os dias (já que a velha senhora não podia mais fazer o caminho com frequência) que o abraçasse. Ao chegar à cabana, a menina encontrou o monge em zazen. Ela abraçou-o e perguntou-lhe se gostava dela. O monge, frio e indiferente, disse de forma dura:
“É como se uma árvore seca estivesse abraçada a uma fria rocha. Está tão frio como o mais rigoroso inverno, não sinto nenhum calor.”
A jovem retornou, e disse o que o monge fez. A velha, irritadíssima, foi até lá, expulsou o monge e queimou a cabana. Enquanto ele se afastava, ela gritou:
“E eu, que passei vinte anos sustentando um idiota!”

 

44.

Um dia um discípulo perguntou ao seu professor:
“Mestre, todas as coisas existentes têm de extinguir-se, mas há uma Verdade Eterna?”
“Sim,” disse o mestre. E apontou para o jardim:
“Ela é como as flores do campo, que de tão belas parecem brocados de pura seda; como um riacho aparentemente imóvel, mas que de facto está fluindo suavemente para o oceano.”

 

45.

Shin-kung perguntou a um dos seus mais inteligentes monges:
“Podeis capturar o Vazio?”
“Sim, senhor”, replicou ele.
“Mostrai-me como fazes,” pediu o mestre.
O monge abriu os braços e açambarcou o espaço vazio. Shin-kung disse:
“É essa a maneira? Apesar de tudo, não capturou coisa alguma.”
“Então,” replicou o monge um tanto ofendido, “qual é o método que usas?”
O mestre segurou o nariz do aluno e deu um forte puxão. O rapaz gritou:
“Aaiii! Estás puxando com muita força! Está me machucando!”
O mestre replicou:
“Perfeito! Essa é a maneira de realmente capturar o Vazio!”

 

46.

Num dia chuvoso, quando estava sentado com um discípulo no salão do templo e ouvindo as gotas d’água batendo suavemente no telhado e no pátio, o mestre Jing-qing perguntou ao outro monge:
“Que som é aquele lá fora?”
“É a chuva,” respondeu o monge. O mestre disse:
“Ao buscar fora de si mesmos alguma coisa, todos os seres se confundem com os significados.”
“Então,” replicou o discípulo, “como deveria eu me sentir em relação ao que percebo, Mestre?”
O sábio apenas disse:
“Eu sou o barulho da chuva.”

 

47.

Um dia, um discípulo foi ao mestre Kian-fang e perguntou-lhe:
“Todas as direções levam ao caminho de Buddha, mas apenas uma conduz ao Nirvana. Por
favor, mestre, diga-me onde começa este Caminho?”
O velho mestre fez um risco no chão com seu bastão e disse:
“Aqui”.

 

48.

Um praticante foi até o seu professor de meditação, tristemente, e disse:
“Minha prática de meditação é horrível! Ou eu fico distraído, ou minhas pernas doem muito, ou eu constantemente fico com sono. É simplesmente horrível!!!!”
“Isso passará,” o professor disse suavemente.
Uma semana depois, o estudante retornou ao seu professor, eufórico:
“Minha prática de meditação é maravilhosa! Eu sinto-me tão consciente, tão pacífico, tão relaxado, tão vivo! É simplesmente maravilhoso!!!!!”
O mestre disse tranqüilamente:
“Isso também passará.”

 

49.

Um monge perguntou a Ta-chu:
“São as palavras a Mente?”
“Não, as palavras são condições externas. Elas não são a Mente,” disse o mestre.
“Então onde, fora das condições externas, podemos encontrar a Mente?”
“Não há Mente além das palavras,” declarou o sábio.
“Não havendo Mente independente das palavras, o que é afinal a Mente?” perguntou o monge, confuso.
“A Mente é sem forma e sem imagens. Em verdade, ela nem depende nem é independente das palavras. É eternamente serena e livre em seu movimento.”

Koan: Onde está a sua Mente?

 

50.

Quando era jovem, o então monge Ikkyu e seu irmão estavam arrumando o quarto de seu mestre, e num acidente o irmão quebrou a tigela da cerimonia do chá favorita do sábio professor. Ambos ficaram assustados, pois a tigela era muito estimada pelo mestre, pois foi um presente do imperador. Entretanto, Ikkyu disse ao irmão:
“Não se preocupe. Sei como abordar a questão com nosso mestre!”
Juntou os pedaços de cerâmica, escondeu-os no manto, saiu para o jardim do templo e sentou-se a esperar pelo velho sábio. Quando este se aproximou, Ikkyu propôs-lhe um Mondo (uma seqüência de perguntas e respostas):
“Mestre, é dito que todos os seres e todas as coisas no Universo estão fadadas a morrer?”
“Sim,” respondeu o Mestre, “o próprio Buddha assim afirmou, e tal conceito é inegável: todas as coisas têm de perecer.”
“Sendo assim, devemos compreender a natureza da impermanência, e superar o sofrimento ignorante pelas perdas que são, afinal, relativas e inevitáveis.”
“Com certeza, tal compreensão faz parte do caminho correto!” disse o mestre feliz pela sagacidade de seu jovem discípulo. Neste momento, Ikkyu retirou os cacos de sua manga, pousou-os à frente do mestre e disse:
“Mestre, sua querida tigela de chá morreu…”
E saiu ligeiro da presença do surpreso sábio…

 

51.

Um professor de Zen, após anos como orientador de um aluno particularmente sensível e sábio, resolveu lhe dar um presente:
“Estou ficando velho, em breve morrerei. Para simbolizar sua sucessão a mim como mestre vou lhe dar este livro valiosíssimo.”
O discípulo, entretanto, não estava interessado em livros:
“Não é necessário, obrigado, mestre. Eu aceitei o seu ensinamento como o Zen que prescinde a palavra escrita. Gosto de sua face original. Fique com seu precioso livro.”
O professor insistiu, e afirmou, orgulhoso:
“Este livro atravessou sete gerações, é uma relíquia! Por favor, fique com ele como um símbolo de sua aceitação do manto e da tigela!”
O outro apenas disse:
“Está bem, dê-me o livro.”
Ao recebê-lo, o discípulo simplesmente atirou o livro no fogo próximo, queimando-o. O professor ficou chocado. Gritou para o aluno, indignado:
“Como pôde fazer isso?! Era uma peça inestimável de conhecimento!”
Foi a vez do sábio discípulo ficar indignado:
“Como podes dar mais valor a papel e couro do que àquilo que me ensinastes directamente, de forma pura? Ensinar uma sabedoria que não se pode praticar é como agir sem coração, e não ser nada mais do que um repetidor de textos sagrados. Tu me deste um objeto, e eu usufrui dele como considerei adequado. Como podes ficar indignado com um simples ‘dar e receber’?”

 

52.

Um monge perguntou a Tozan enquanto ele estava pesando algum linho:
“O que é Buddha?”
Tozan disse:
“Um quilo e meio de puro linho…”

 

53.

Joshu perguntou a Nansen: “Qual é o Caminho?”
Nansen disse: “O dia-a-dia é o Caminho”.
“Pode ele ser estudado?” perguntou Joshu
Nansen disse: “Se tentares estudá-lo, irás estar muito longe dele.”
Joshu replicou: “Se não posso estudá-lo, como posso entender o Caminho?”
Nansen completou: “O Caminho não pertence ao mundo da percepção, nem Ele pertence ao mundo da não-percepção. A cognição é delusão e a não-cognição é sem sentido. Se desejais alcançar o Verdadeiro Caminho além das dúvidas, busqueis ser tão livre como o céu. E não afirmais que isso é bom ou ruim.”
Ao ouvir tais palavras, Joshu atingiu o Satori.

Koan: Sabeis reconhecer a Liberdade?

 

54.

Shogen perguntou:
“Por que o homem Iluminado não se ergue e explica sua natureza?”
E então completou:
“Na verdade, não é necessário que as palavras venham da língua…”

 

55.

Um monge perguntou a Yun-men (Ummon ? – 966):
“O que é o Dharma-Buddha?”
Yun-men respondeu:
“Esterco seco.”

 

56.

Um monge perguntou a Fuketsu:
“Sem falar, sem silenciar, como vós podeis expressar a Verdade?”
Fuketsu replicou:
“Eu sempre me lembro das primaveras no sul da China. Os pássaros cantam por entre as inumeráveis espécies de belas e cheirosas flores…”

 

57.

Quando Buddha atingiu a Suprema Iluminação, diz uma lenda que alguém lhe perguntou:
“Vós sois um Deus?”
“Não,” ele disse.
“Vós sois um santo?”
“Não”
“Então quem sois vós?”
Ele então disse:
“Eu sou Desperto.”

 

58.

Após algumas horas em agradável colóquio com seu mestre Niao-wo, o discípulo ergueu-se e reverentemente despediu:
“Obrigado por vosso tempo, Mestre. Agora eu me vou.”
“E para onde vais?” Perguntou o sábio.
“Parto pelo país, sempre estudando com afinco o Dharma-Buddha,” disse o discípulo.
“Ah, o Dharma-Buddha!” exclamou o Mestre, “Por acaso eu tenho um pouco disso aqui comigo, sabes?”
O jovem discípulo, intrigado e algo curioso, e também ligeiramente ambicioso, perguntou rápido, olhando em volta:
“É mesmo? Onde está? Onde está?”
O Mestre retirou um fio de seu manto e mostrou-o, declarando:
“Este fio também é o Dharma-Buddha.”

 

59.

Um filósofo perguntou a Buddha:
“Sem palavras, sem silêncio, podeis vós revelar-me a Verdade?”
O Buddha permaneceu em silêncio.
O filósofo agradeceu profundamente e disse:
“Com vossa amável generosidade eu esclareci minha Ilusão e penetrei no verdadeiro caminho.”
Após o filósofo ter partido, Ananda perguntou ao Buddha o que ele havia obtido.
O Buddha replicou:
“Um bom cavalo corre apenas à visão da sombra do chicote.”

 

60.

Um monge perguntou a Chao-chou:
“O que diríeis se eu chegasse ante vós sem nada trazer?”
Chao-chou respondeu:
“Deixai-o aí mesmo, no chão.”
O monge contestou:
“Mas eu disse que nada trazia, como então poderia pôr algo no chão?”
“Tudo bem então,” comentou Chao-chou, despreocupado, “nesse caso, levai-o daqui.”

 

61.

Certo dia, um discípulo perguntou ao monge Pa-ling:
“Há alguma diferença entre o que disseram os patriarcas e o que está escrito nos Sutras sagrados?”
O sábio respondeu:
“Quando fica frio, os faisões empoleram-se nos galhos das árvores, e os patos mergulham sob a água…”

 

62.

Em dois mosteiros vizinhos viviam dois jovens monges muito amigos. De manhã, sempre os monges se encontravam, cada um cuidando de seus afazeres. Certo dia, um dos monges estava varrendo o pátio de seu templo e, vendo aproximar-se o amigo, perguntou:
“Olá! Onde vais?”
O amigo respondeu, feliz:
“Vou aonde meus pés me levarem…”
O monge ficou intrigado com a resposta e comentou com seu mestre. Este lhe disse:
“Da próxima vez, diga-lhe: ‘E se não tivesses pés?'”
Quando o jovem noviço viu o amigo de novo na manhã seguinte, fez a mesma pergunta já antecipando o momento em que pegaria o amigo de jeito, desta vez:
“Onde vais?”
Mas o outro disse:
“Aonde o vento me levar!”
O monge ficou frustado! Voltou ao mestre e contou a nova resposta, e este, sorrindo, disse:
“Da próxima vez, diga-lhe: ‘E se o vento parasse de soprar?'”
O jovem monge ficou encantado com a ideia:
“Sim, sim! Essa é boa! Agora ele não me escapa!”
No dia seguinte, ao amanhecer, ele viu seu amigo aproximando-se de novo. Perguntou-lhe:
“Olá! Onde vais?”
O amigo parou, sorriu-lhe, e falou suavemente:
“Simplesmente vou ao mercado, meu amigo…”, e seguiu seu caminho.

 

63.

Chao-Chou (Joshu) certa vez varria o chão quando um monge lhe perguntou:
“Sendo vós o sábio e santo Mestre, dizei-me como se acumula tanto pó em seu quintal?”
Disse o Mestre, apontando para o pátio:
“Ele vem lá de fora.”

64.

Um monge aproximou-se de seu mestre – que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua – com uma grande dúvida:
“Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitos de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?”
O velho sábio respondeu:” As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.”
O monge replicou: “Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?”
“Poderia,” confirmou o mestre, “e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.”
“Então,” o monge perguntou,” por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?”
“Porque,” completou o sábio, “da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como facto consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples facto dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.”
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

65.

“Se vires o Buda, mata-o !”
“Mata aquele que encontres no teu caminho. Se encontrares o Buda, mata o Buda; se encontrares os Patriarcas, mata os Patriarcas; se encontrares os Arahat, mata-os também”
O que significa isso? Leia este Ensaio de Paulo Borges

 

66.

Um monge perguntou a Joshu: “um cão possui a natureza de Buda?”
Joshu respondeu: “Mu”»
Comentários a este Koan: aqui.

 

67.

Um monge perguntou a Hui-neng (o Sexto Patriarca Zen):
“Quem herdou o espírito do Quinto Patriarca?”
Hui-neng respondeu:
“Aquele que compreende o Budismo.”
“Teríeis então vós herdado este espírito?” quis saber o monge.
“Não,” replicou o mestre. “Eu não o herdei.”
“Por que não?!?” o monge, naturalmente pasmo, perguntou então.
“Porque não compreendo o Budismo.” Afirmou Hui-neng.

Koan: Vós compreendeis o Budismo?

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