Espiritualidade na adolescência

Publicado em Atualizado em

Trechos da Introdução do livro “Buda na Mochila: Budismo prático para jovens”, de Franz Metcalf. Editora Pensamento.

A adolescência (assim como outras fases da vida, mas, sobretudo, a adolescência) é realmente difícil. É preciso ser filha ou filho, irmã ou irmão, neto, parente, vadio, adolescente com os hormônios a mil, estudante, cidadão, trabalhador, “futuro líder”, parte do ecossistema, psicoespiritualista, ser humano. Você tem de ser tudo isso, o que requer certo esforço. […]

Os esforços mais importantes despendidos por um adolescente — a transição para um corpo adulto, para uma sociedade adulta e uma vida adulta, que requerem conscientização, discernimento e paciência — são os mesmos despendidos por todos os que estão no caminho espiritual. A experiência diária de ser um adolescente pode ser uma experiência verdadeiramente espiritual, dessa forma você é um buscador espiritual. Se isso lhe soa presunçoso, reflita sobre o seguinte: neste exato momento você esta criando a si mesmo, e isso é a coisa mais importante que você vai fazer na vida. Você não tem de chamar esse processo de espiritual, apenas respeitá-lo.

O que é religião? O que é espiritualidade? Esses conceitos são notoriamente difíceis de definir, mas aqui está uma breve resposta. Religião é um sistema multidimensional de rituais, mitos, doutrinas, éticas e formas sociais e materiais, além de uma experiência sagrada. Não existe uma religião “certa”, mas sim literalmente milhares de sistemas pelos quais as pessoas entram em contato com o sagrado, dando significado e ordem à vida humana.

Espiritualidade é a relação de uma pessoa com o sagrado. Trata-se de uma experiência interior e, portanto, pode variar de pessoa para pessoa. Mas, espiritualmente, deve originar-se sempre de certas verdades imutáveis. Algumas pessoas descobrem a espiritualidade por intermédio de uma religião tradicional. Outras a vivenciam por meio da natureza, da arte, da ciência ou do amor.

Como adolescente, a sua espiritualidade é intensa por causa das suas experiências e porque você vive tão próximo dessas experiências. Por mais que tente fugir delas, drogando-se com TV, livros, videogames ou até mesmo drogas de verdade, essas tentativas de isolar-se apenas mostram o quanto suas experiências são poderosas. Durante a adolescência, você passa por diversas experiências fundamentais:

  • Você adquire maior conscientização moral e tem de fazer opções de cunho moral sozinho. Você pára de simplesmente aceitar as normas estabelecidas por seus pais ou pela igreja; muitas vezes não aceita nem mesmo as leis do país. Em vez disso, analisa os princípios que estão por trás dessas normas e decide se são válidos ou não. Depois disso, o mundo nunca mais será o mesmo.
  • Você procura fazer parte de novas comunidades que se norteiam por princípios de honestidade e justiça. Essas comunidades geralmente têm raízes religiosas. Você anseia por pertencer a um grupo que tenha os seus valores, quer seja uma turma ou uma igreja — muito embora mais tarde possa perceber que as pessoas são hipócritas e ficar decepcionado. Por esse motivo, os adolescentes são os que mais tendem a trocar de seita ou religião. Além disso, quando encontram uma nova religião costumam ficar bastante entusiasmados.
  • Você adquire aptidão intelectual para o raciocínio formal — a capacidade de refletir sobre a capacidade de pensar –, que lhe permite tomar consciência da sua própria conscientização. Essa experiência tem consequências surpreendentes, uma vez que expande a sua consciência para além do espaço do crânio. Você fica aberto ao sagrado, seja lá o que você considera sagrado. Essa experiência também pode transformar todo o seu mundo.
  • Você sente o seu corpo sofrer transformações e vê os seus pais ficarem mais velhos. A partir dessas evidências e da sua conscientização, deduz a inevitabilidade da velhice e da morte. A percepção repentina da sua própria mortalidade pode abater-se sobre você com tanta força que causa vertigem.
  • Você começa a procurar freneticamente algum tipo de significado numa vida que fatalmente terminará em morte e perda. Se nenhuma resposta mundana parece transcender a morte, é preciso apelar para respostas cósmicas. Se você for criado em uma religião, pode ser que recorra a ele neste momento com maior fervor. Os seres humanos não conseguem viver sem um significado. A maioria dos adolescentes descobre que os velhos significados da infância não funcionam mais. Alguns precisam descobrir um novo significado para a vida, caso contrário simplesmente não vale mais a pena viver. É preciso um significado para enfrentar a morte.
  • Você se torna um ser sexual, independentemente de agir como tal, e, portanto, conhece os prazeres físicos, a intimidade e as tentações da vida. O sexo é profundamente espiritual. Só não é considerado espiritual por religiões que negam o caráter sagrado do corpo. O budismo (o budismo que eu prego, pelo menos) não está entre elas. A força da sexualidade pode ser perigosa, mas também com certeza espiritual.
  • Você começa a ter relacionamentos românticos e descobre o centro exato da sua vida — a comunhão maravilhosa do físico, do emocional e do transcendente, que é o amor. Até mesmo a paixão mais passageira o  tira de si de uma forma que indica a liberdade extática do verdadeiro amor. Esse é o objetivo do budismo: êxtase.

Você já compreendeu o que é um ser espiritual? Se ainda não compreendeu, talvez seja porque não goste da palavra “espiritual”. Eu gostaria que tivéssemos uma palavra mais adequada no nosso vocabulário, mas essa é a melhor que temos. É uma palavra que Buda raramente usava. Ele não pregava seus ensinamentos nesses termos. Buda sempre conduzia as pessoas de volta às suas próprias experiências cotidianas. Será que elas eram felizes ou estavam se apegando a desejos ou concepções que as deixavam infelizes? Invariavelmente a resposta era a segunda opção. Então, Buda as ajudava a se libertarem dos desejos e das concepções que estavam causando essa dor e as conduzia para a calma… para a percepção intuitiva… para o nirvana!

Buda fazia isso afirmando as experiências cotidianas das pessoas, tanto externas quanto internas. Ele sempre as trazia de volta à própria mente, pedindo que tomassem consciência de seu estado mental dinâmico. Ele era bastante prático em relação às características das pessoas, tanto interiores como exteriores. Ele as aconselhava a voltarem a sua atenção para o momento presente — uma estratégia perfeita também para você neste exato momento. Ele se concentrava no lado prático, e não no lado etéreo ou religioso. Essa é a abordagem deste livro. Não se preocupe com o fato de ser ou não “espiritual”. Não importa se você prefere se ver como um ser espiritual. O que importa é que se considere uma pessoa séria.

Você está passando por transformações, e elas vão continuar. Como dizia Buda, não existe uma pessoa “imutável”, portanto “você” não tem uma identidade única e decisiva. Nós vivemos num mundo real, e para nos sentirmos bem nele precisamos de uma identidade dinâmica. Todos nós nos esforçamos nesse sentido durante toda a vida, mas, sobretudo, na adolescência.

Portanto, você está realizando uma jornada sagrada. A sua realidade e a sua trilha nessa jornada são sagradas — se você estiver consciente disso. Este livro o ajudará a fazer exatamente isso.

O que este livro oferece?

Começamos analisando a vida de Buda. Acompanhamos o seu crescimento e o seu questionamento em relação à própria identidade e ao que queria se tornar. Ele se rebela contra os pais, rejeitando a identidade que eles tentaram lhe impor. Em vez disso, Buda empreende uma dolorosa busca interior. Isso lhe parece familiar? Espero que o seu relacionamento com seus pais seja melhor do que o de Buda, mas tenho a certeza de que há alguns pontos em comum. O caminho seguido por Buda não é tão diferente assim do seu. As dúvidas dele são as mesmas que as suas.

Em seguida exploramos as bases dos ensinamentos de Buda e a religião que eles originaram. Por mais de 2500 anos o budismo se desenvolveu e sofreu mudanças e está mudando mais do que nunca — embora permaneça sempre firmemente enraizado nas idéias de Buda.

Na segunda parte analisamos as situações e os problemas típicos da adolescência, aplicando a sabedoria budista e, ao mesmo tempo, aprendendo a mudar. A sabedoria budista pode ensinar-lhe novas formas de encarar a si mesmo e ao seu mundo, que o ajudarão a ser mais feliz. À medida que enfocaremos os aspectos mais importantes — escola, imagem corporal, identidade, sexo, entre outras coisas — você aprenderá que é muito simples adotar a perspectiva budista. Não é fácil, mas é simples. Obviamente exige bastante empenho… tudo bem, para ser honesto, uma vida inteira de empenho sério. Mas não é necessário assumir nenhum compromisso agora, e os primeiros passos podem levá-lo a alcançar grandes progressos num curso espaço de tempo.

A terceira parte intitula-se “Caminho Budista”. O “caminho” é a clássica metáfora do budismo. Buda encarava a vida como um caminho, e esse termo acabou se transformando em sinónimo de budismo. O caminho não tem fim e, portanto, o importante é percorrê-lo. A terceira parte apresenta as etapas básicas. Obviamente algumas coisas podem dar errado durante essa trajetória — tanto no âmbito interno como externo. Desculpe, mas o budismo não é uma fuga da realidade, mas sim uma fuga para a realidade, que inclui decepção e dor. Eu forneço dicas de como evitar obstáculos internos (como resistência) e externos (como preconceito) durante o percurso.

Essa secção também traz técnicas básicas de meditação, uma tradicional prática budista que faz bem para o corpo e para a mente, quaisquer que sejam suas crenças religiosas. Em seguida, apresenta séries completas de exercícios espirituais que você pode fazer sozinho. […]

Seja qual for o seu caminho, Buda na Mochila pode lhe ensinar alguma coisa. Pode abrir os seus olhos para uma vida extraordinária e lhe mostrar oportunidades. Este livro vai ajudá-lo a usar idéias budistas para ser mais feliz, vai indicar-lhe que direcção seguir se você quiser descobrir mais. Mas lembre-se, suas crenças e sua forma de ver o mundo são só suas. Se alguém tentar privá-lo da liberdade de escolha religiosa, é porque não confia na sua capacidade de escolher sozinho. De qualquer maneira, esses esforços serão inúteis, pois essas opções jamais podem ser impostas. Elas são a sua verdadeira liberdade. O budismo e este livro devem somar-se a ela. Portanto, seja livre e pode ser que você alcance a felicidade.


Franz Metcalf fez mestrado no Graduate Theological Union e obteve seu doutoramento na Universidade de Chicago com uma dissertação sobre a pergunta: “Por que os americanos praticam Zen-budismo?
Actualmente, ele trabalha no Forge Institute for Spirituality and Social Change, é vice-presidente da comissão de Person, Culture, and Religion Group da American Academy of Religion e lecciona numa faculdade de Los Angeles. Além de contribuir com revisões e capítulos para diversas publicações académicas, Metcalf é editor do Journal of Global Buddhism. Ele também escreveu O Que Buda Faria?, publicado pela Editora Pensamento.


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