O Universo num Átomo | Dalai Lama

Publicado em Atualizado em

Em cada átomo dos reinos do Universo,
Existem vastos oceanos de Universos.
(O Grande Ornamento Floral,  uma escritura budista antiga)

Thangka Tibetana Astrológica
Thangka Tibetana Astrológica: O movimento dos signos do zodíaco e planetas – 1684

Trechos do Cap. 4 – O Big Bang e o universo budista sem princípio; do livro “O Universo num átomo”, de Dalai Lama. Editora: QuidNovi

Quem não experimentou um sentimento de admiração ao olhar para a profundidade dos céus iluminados por estrelas sem fim numa noite límpida? Quem nunca se perguntou se há uma inteligência por detrás do cosmos? Quem nunca meditou sobre se o nosso planeta será o único a albergar seres vivos? Para mim estas interrogações são naturais na mente humana. Em toda a história da humanidade, houve um impulso real para encontrar respostas a estas questões. Uma das grandes realizações da ciência moderna é ter-nos feito chegar mais perto do que nunca de uma compreensão das condições e dos processos complicados subjacentes à origem do nosso cosmos. […]

A cosmologia moderna — tal como muitas outras coisas nas ciências físicas — baseia-se na teoria da relatividade de Einstein. Em cosmologia, as observações astronómicas em conjunto com a teoria da relatividade geral, que introduziu o conceito de gravidade como curvatura do espaço e do tempo, mostraram que o nosso universo não é eterno nem estático na sua forma actual. Está em evolução e expansão contínuas. Esta descoberta está de acordo com a intuição básica dos cosmólogos budistas da Antiguidade, que consideram que todo o universo particular passa pelas fases de formação, expansão e, finalmente destruição. […]

(…) o budismo explica a evolução do cosmos em termos de princípio da origem dependente, em que a origem e a existência de tudo tem de ser compreendida em termos da complexa rede de causas e condições inter-relacionadas. Isto aplica-se à consciência do mesmo modo que a matéria.

Segundo as escrituras antigas, o próprio Buda nunca respondeu directamente a perguntas que lhe fizeram sobre a origem do universo. Num famoso sorriso, o Buda referiu-se à pessoa que faz estas perguntas como um homem ferido por uma seta envenenada. Em vez de deixar o cirurgião retirar-lhe a seta, o ferido insiste em saber primeiro a casta, o nome e o clã do homem que disparou a seta, se é de tez escura, morena ou clara, se vive numa aldeia, numa vila ou numa cidade, se a arma utilizada era um arco ou uma besta, se a corda do arco era de fibra, junco, cânhamo, tendão ou casca de árvore, se a haste da seta era de madeira de planta silvestre ou de cultura, e por aí adiante. As interpretações do significado da recusa do Buda em responder directamente a estas perguntas são variáveis. Uma delas é que o Buda recusou responder porque estas questões metafísicas não pertencem directamente ao caminho da libertação. Outra, defendida sobretudo por Nagarjuna, é que, na medida em que as perguntas estavam construídas com base no pressuposto da realidade intrínseca das coisas, e não na origem dependente, responder teria conduzido a um fortalecimento da crença na existência consistente e intrínseca.

As perguntas estão agrupadas de uma forma ligeiramente diferente nas diversas tradições budistas. O cânone Páli enumera dez destas questões “a que Buda não deu resposta”, enquanto que a tradição indiana clássica refere as seguintes catorze:

  1. O eu e o universo são eternos?
  2. O eu e o universo são transitórios?
  3. O eu e o universo são ao mesmo tempo eternos e transitórios?
  4. O eu e o universo não são eternos nem transitórios?
  5. O eu e o universo têm princípio?
  6. O eu e o universo não têm princípio?
  7. O eu e o universo têm e não têm princípio?
  8. O eu e o universo não têm princípio nem não têm princípio?
  9. O Abençoado existe após a morte?
  10. O Abençoado não existe após a morte?
  11. O Abençoado existe e não existe após a morte?
  12. O Abençoado não existe nem não existe após a morte?
  13. A mente é o mesmo que o corpo?
  14. A mente e o corpo são duas entidades separadas?

Apesar de a tradição das escrituras mencionar a recusa do Buda em enveredar por este nível de discurso metafísico, o budismo, enquanto sistema filosófico na Índia antiga, desenvolveu uma longa história de aprofundamento destas questões fundamentais e perpétuas sobre a existência e o mundo em que vivemos. A minha tradição de budismo tibetano recebeu este legado filosófico.

No budismo, houve duas tradições fundamentais de cosmologia. Uma é o sistema Abhidharma, partilhado por muitas escolas budistas, como o budismo Theravada, que tem sido até hoje a tradição dominante nos países como a Tailândia, o Sri Lanka, o Myanmar, o Camboja e o Laos. Embora a tradição do budismo proveniente do Tibete seja o budismo Mahayama, especialmente a versão do budismo indiano conhecida por tradição Nalanda, a psicologia e a cosmologia Abhidharma tornaram-se uma importante parte da paisagem intelectual tibetana. A principal obra sobre o sistema Abhidharma de cosmologia que penetrou no Tibete foi o Tesouro do Conhecimento Superior (Abhidharma-Kosha) de Vasabandhu. […]

Em algumas escrituras antigas, os planetas são descritos como corpos esféricos suspensos no espaço vazio, de uma forma que não difere da concepção dos sistemas planetários na cosmologia moderna. Na cosmologia Kalachakra, é dada uma sequência definida para a evolução dos corpos celestes na nossa galáxia actual. Em primeiro lugar, formavam-se as estrelas, a seguir o sistema solar, e assim por diante. O interessante nas cosmologias Abhidharma e Kalachakra é a visão geral que transmitem sobre a origem do universo. Há um reconhecimento de que o nosso universo é apenas um entre um número infindável de outros. Tanto o Abhidharma como o Kalachakra utilizam o termo técnico trichilicosm (que, segundo penso, corresponde mais ou menos a um universo com mil milhões de mundos) para transmitir esta ideia de grandes universos, e ambos afirmam que existem muitos. Assim, admite-se que, embora não haja um “princípio” nem um “fim” para o universo como um todo, há um processo temporal definido de um princípio, um meio e um fim relativamente a qualquer universo individual.

A evolução de um universo particular é vista em termos de quatro estádios principais, conhecidos como as eras 1) da vacuidade, 2) da formação, 3) da permanência e, finalmente, 4) da destruição. Cada um destes estádios deve durar imenso tempo, vinte “éons médios”, e é só no último éon médio do estádio da formação que se desenvolvem os seres sencientes. A destruição de um universo pode ser causada por qualquer dos três elementos naturais, com excepção da terra e do espaço, ou seja, água, fogo e ar. Seja qual for o elemento que tenha levado à destruição do universo anterior, ele actuará como base para a criação de um novo universo.

Por conseguinte, no cerne da cosmologia budista está não só a ideia de que existem múltiplos universos — segundo alguns textos, infinitamente mais do que os grãos de areia do rio Ganges –, mas também a ideia de que eles se encontram num estado permanente de criação e destruição. Isto significa que o universo não tem um princípio absoluto. As questões que esta ideia levanta para a ciência são fundamentais. Houve um Big Bang ou houve vários? Existe um universo ou existem muitos, ou mesmo um número infinito? O universo é finito ou infinito, como afirmam os budistas? O nosso universo ir-se-á expandir indefinidamente ou a sua expansão abrandará, e chegará mesmo a inverter-se, de tal modo que no final acabará num bid crunch? O nosso universo faz parte de um cosmos que se reproduz eternamente? Os cientistas debatem estas questões intensamente. Do ponto de vista budista, há ainda um problema adicional. Mesmo que tenhamos certeza de que houve apenas um Big Bang cósmico, podemos ainda perguntar se isso representou a origem de todo o universo ou apenas do nosso universo particular. Assim, a questão fulcral é saber se o Big Bang — que, de acordo com a cosmologia moderna, é o princípio do nosso actual universo — é realmente o princípio de tudo.

Na perspectiva budista, a ideia de que há um único princípio definido é altamente problemática. Se houvesse um tal princípio absoluto, isto só poderia conduzir, logicamente, a uma de duas opções. Uma é o teísmo, que propõe que o universo é criado por uma inteligência totalmente transcendente e, por conseguinte, fora das leis da causa e efeito. A segunda opção é o universo não surgir de nenhuma causa. O budismo rejeita qualquer destas opções. Se o universo for criado por uma inteligência a priori, as questões do estatuto ontológico dessa inteligência e do tipo de realidade que a constitui permanecem de pé. […]

O budismo e a ciência partilham uma relutância fundamental a postular um ser transcendente como origem de todas as coisas. Isto não nos deve surpreender, dado que estas duas tradições de investigação são essencialmente não-teístas nas suas orientações filosóficas. […]

A Cosmologia budista estabelece o ciclo do universo do seguinte modo: primeiro há um período de formação, a seguir um período em que o universo se mantém, depois um período em que é destruído, seguindo de um período de vazio antes da formação de um novo universo. Durante o quarto período, o período de vazio, as partículas de espaço subsistem, e é a partir destas partículas que se forma toda a matéria dentro de um novo universo. É nestas partículas de espaço que encontramos a causa fundamental de todo o mundo físico. Se quisermos descrever a formação do universo e dos corpos físicos dos seres, precisamos de analisar o modo como os diferentes elementos que constituem esse universo se criaram a partir destas partículas do espaço.

É na base do potencial específico dessas partículas que se desenvolveu a estrutura do universo e de tudo o que nele existe — planetas, estrelas, seres sencientes, nomeadamente humanos e animais. Se remontarmos às causas últimas dos objectos materiais e do mundo, vamos chegar às partículas do espaço. Estas antecedem o big Bang (que é o mesmo que dizer qualquer novo começo) e são na realidade os restos do universo precedente que se desintegrou. Parece que alguns cosmólogos perfilham a ideia de que o nosso universo surgiu como uma flutuação daquilo que se designa por vácuo quântico. Para mim, esta concepção reproduz a teoria Kalachakra das partículas do espaço.

Do ponto de vista da cosmologia moderna, a compreensão da origem do universo durante os primeiros segundos constitui um desafio quase intransponível. Parte do problema reside no facto de as quatro forças conhecidas da natureza — gravitação e electromagnetismo, e as forças nucleares fracas e fortes — não funcionarem nesta altura. Começam a operar mais tarde, quando a densidade e a temperatura do estádio inicial decresceram significativamente, de modo que as partículas elementares da matéria, como o hidrogénio e o hélio, se começam a formar. O Princípio exacto do Big Bang é aquilo que se chama de “singularidade”. Aqui, todas as equações matemáticas e leis da física soçobram. Nesse momento, quantidades normalmente mensuráveis, como a densidade e a temperatura, tornam-se indefinidas.

Uma vez que o estudo científico da origem cosmológica exige a aplicação de equações matemáticas e o pressuposto da validade das leis da física, se estas equações e leis se anularem parece que nos teremos de perguntar se alguma vez alcançaremos uma compreensão completa dos segundos iniciais do Big Bang. Os meus amigos cientista disseram-me que alguns dos melhores cérebros estão empenhados na exploração da história dos primeiros estádios da formação do nosso universo. Alguns acreditariam que a solução para aquilo que parece um conjunto de problemas insuperáveis deve residir na descoberta de uma grande teoria unificada, que contribuirá para integrar todas as leis da física conhecidas. Talvez isso consiga juntar os dois paradigmas da física moderna que se parecem contradizer — a relatividade e a mecânica quântica. Pelo que sei, os pressupostos axiomáticos destas duas terias têm-se revelado até agora impossíveis de harmonizar. A teoria da relatividade sugere que o cálculo exacto da situação precisa do cosmos num dado momento é possível se tivermos a informação suficiente. Pelo contrário a mecânica quântica afirma que o mundo das partículas microscópicas só pode ser apreendido em termos probabilísticos, dado que a um nível fundamental o universo é composto por pedaços ou quanta de matéria (daí o nome de física quântica), que estão sujeitos ao princípio da incerteza. Teorias com nomes exóticos, como a teoria das supercordas ou a teoria M estão a ser propostas como candidatas à grande teoria unificada.

Há um outro desafio com que se depara o próprio propósito de alcançar o conhecimento total do desabrochar primordial do nosso universo. Ao nível fundamental, a mecânica quântica diz-nos que é impossível predizer com exactidão como uma partícula se pode comportar numa dada situação. Deste modo, apenas podemos fazer predições sobre o comportamento das partículas na base da probabilidade. Assim, por mais poderosas que sejam as fórmulas matemáticas, uma vez que o nosso conhecimento das condições iniciais de um dado fenómeno ou acontecimento será sempre incompleto, não podemos compreender completamente o desenrolar do resto da história. Quando muito, podemos fazer conjecturas aproximadas, mas nunca poderemos chegar a uma descrição completa de um único átomo, quanto mais todo o universo.

No mundo budista, há um reconhecimento da impossibilidade prática de apreender totalmente o origem do universo. Um texto Mahayana intitulado A Escritura do Ornamento Floral contém uma extensa análise dos universos infinitos e dos limites do conhecimento humano. Uma secção da obra, chamada “O Incalculável”, fornece uma série de cálculos de números extremamente elevados, que culminam em termos como “o incalculável”, “o incomensurável”, “o ilimitado” e “o incomparável”. O maior número é o “incontável ao quadrado”, que se refere ser a função do “indizível” multiplicado por si próprio! Um amigo disse-me que este número pode ser escrito como 10⁵⁹. O Ornamento Floral prossegue e aplica estes números extravagantes aos universos; sugere que se os mundos “incontáveis” forem reduzidos a átomos e cada átomo contiver mundos “incontáveis”, mesmo assim o número de universos não se esgotará.

De igual modo, em belos versos, o texto compara a realidade imbricada e profundamente inter-relacionada do mundo com uma rede infinita de pedras preciosas chamada “rede de jóias de Indra”, que se estende para o espaço infinito. Em cada nó da rede está uma gema cristalina, que está ligada a todas as outras gemas e reflecte em si própria todas as outras. Nesta rede, nenhuma gema se encontra no centro nem na periferia. Todas as jóias estão no centro na medida em que cada uma delas reflecte todas as outras na rede. Ao mesmo tempo, estão na periferia, na medida em que cada uma delas se encontra reflectida em todas as outras. Dado o profundo inter-relacionamento de tudo no universo, não é possível ter um conhecimento total nem sequer de um único átomo, a menos que se seja omnisciente. Conhecer um átomo completamente implicaria conhecer as suas relações com todos os fenómenos do universo infinito. […]

Mesmo com todas estas profundas teorias científicas da origem do universo, fico com perguntas por responder, perguntas fundamentais: O que existia antes do Big Bang? De onde veio o Big Bang? O que o causou? Por que razão o nosso planeta evoluiu no sentido de permitir a existência de vida? Qual é a relação entre o cosmos e os seres que se desenvolveram no seu seio? Os cientistas  podem menosprezar estas questões, considerando-as desprovidas de sentido, ou então reconhecer a sua importância, mas negar que elas pertençam ao domínio de investigação científica. Contudo, ambas estas abordagens terão como consequência a constatação de limites definidos para o nosso conhecimento científico da origem do nosso cosmos. Não estou sujeito aos constrangimentos profissionais ou ideológicos de uma visão do mundo radicalmente materialista. E no budismo o universo é considerado sem fim nem princípio, pelo que estou muito feliz por me poder aventurar para lá do Big Bang e especular sobre o possível estado das coisas antes dele.

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