Os 20 princípios fundamentais do Karate, o legado espiritual do Mestre Funakoshi

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Trechos do livro “Os 20 princípios fundamentais do Karate, o legado espiritual do mestre Funakoshi”. Editora Cultrix.

(…) Ginchin Funakoshi, disse certa vez que o objetivo maior do karatë não é nem a vitória nem a defesa, mas o aperfeiçoamento do caráter dos seus participantes. (…)

O método do mestre Funakoshi enfatiza as razões espirituais e a agilidade mental acima da força bruta e da técnica. Os praticantes não devem confiar na técnica apenas – socos, chutes e bloqueios -, mas, sim, fomentar também os aspectos espirituais da prática. Conheça a si mesmo e o resto se seguirá naturalmente foi a mensagem que ele deixou para a posteridade há mais de sessenta anos. (…)

Os princípios tratam de questões do caráter e da espiritualidade, assim como da necessidade de coragem, honestidade, perseverança e, o que é mais importante, humildadevirtudes que encontram expressão mediante a cortesia e o respeito autêntico.

Posfácio (de Jotaro Takagi)

Os vinte princípios contidos neste livro aplicam-se não só ao karatê, mas também às artes marciais em geral, assim como a todas as atividades humanas. Muitos estudantes do karatê têm a impressão de que essa modalidade de artes marciais é, mais que tudo, um instrumento para sair vitorioso em disputas e aumentar a força física. No entanto, conforme é explicado neste livro, opiniões como essas refletem um total desconhecimento e um grande mal-entendido em relação a essa arte marcial. O karatê é muito mais que simplesmente uma técnica para obter a vitória em combate. É uma maneira de cultivar o espírito. Os princípios aqui apresentados podem ser aplicados na vida diária tanto pêlos seus praticantes quanto por aqueles que não o praticam.

O mestre Gichin Funakoshi (1868-1957) foi o pai do karatê-do moderno. Como chefe da Okinawa Shobukai, uma associação de karatê, foi convidado pelo Ministério da Educação para ir a Tóquio em maio de 1922, a fim de participar de uma demonstração de artes marciais tradicionais patrocinada pelo governo. Assim, ele se tornou a primeira pessoa em todos os tempos a apresentar ao continente do Japão a disciplina do kamtê-jutsu, exclusiva de Okinawa (Ryukyuan). Encorajado por homens como “o pai do judo”, Jigoro Kano (1860- 1938), e o mestre espadachim Hakudo Nakayama (1873-1958), ele permaneceu em Tóquio e trabalhou para popularizar essa arte marcial.

Ao dar aulas em universidades, na sede da polícia de Tóquio e em outras instituições, fazendo tudo o que pôde para disseminar a consciência dessa arte marcial até então desconhecida, Funakoshi estudou Zen no templo de Engaku-ji, em Kamakura, sob a orientação do abade-chefe Ekun. Por volta de 1929, ao concluir a sua educação, mestre Funakoshi atribuiu um novo nome à disciplina até então simplesmente conhecida em Okinawa como te (mão) ou tode (mão chinesa). Funakoshi substituiu o caractere relativo a “chinês”, que é pronunciado kara em japonês, por um homónimo como o significado de “vazio”. Em lugar de kamtê-jutsu, “técnica de mão chinesa”, a arte passou a ser conhecida como karatê-do, ou “o Caminho da Mão Vazia“.

A escolha da palavra “vazio” reflete um aspecto fundamental do karatê-do, que é defender a si mesmo e bloquear um inimigo usando nada mais do que as mãos desarmadas. Ao mesmo tempo, o conceito de vazio é coerente com o preceito budista shiki soku ze ku, ku soku ze shiki, que significa “a forma do universo é o vazio, o vazio é a forma” (veja a autobiografia de Funakoshi, Karatê-do: O Meu Modo de Vida). Considera-se que a essência do budismo esteja contida no Sutra do Coração, traduzido pelo monge chinês Hsüan-tsang (602-64), cuja peregrinação à índia inspirou o célebre romance chinês conhecido em inglês como Monkey. A equação de vazio e forma é essencial para o ensino do Sutra do Coração, e Funakoshi encontrou paralelos surpreendentes entre o budismo e o seu venerado karatê. (…)

O mais famoso dos vinte princípios é o segundo: “Não existe primeiro golpe no karatê.” Esse princípio pode ser interpretado como significando que o karatê começa com a defesa, em vez de uma instrução para permanecer passivo. Mestre Funakoshi escreveu: “Nunca, em nenhuma circunstância, você deve ser o primeiro a atacar, mas a sua atitude mental deve ser constantemente a de perceber a iniciativa [caso precise se defender].”

Num sentido mais profundo, esse princípio significa que no karatê-do não existe nem eu, nem adversário. O praticante do karatê amplia a sua perspectiva para incorporar um adversário potencial e afasta de si a ideia da separação. Esse é outro modo pelo qual o preceito budista shiki soku ze ku, ku soku ze shiki do Sutra do Coração se traduz no karatê. (…)

No seu livro Karate-do Kyohan, mestre Funakoshi escreveu que “o karatê é a base de todas as artes marciais”. Sem dúvida, pode-se discutir longamente a respeito: coloque uma espada na mão vazia do praticante de karatê e você terá a arte do ken-jutsu; um bastão e terá a arte do bo-jutsu; uma lança e terá a arte do so-jutsu. A forte relação entre o karatê e as outras artes marciais é evidente em pessoas como o próprio professor do mestre Funakoshi, Yasutsune Azato (1828-1906), que foi um mestre espadachim da escola Jigen-ryu e se aperfeiçoou em muitas artes marciais; e o fundador da escola de karatê Goju-ryu, Chojun Miyagi (1888-1953), que também foi considerado um espadachim extraordinário. (…)

O verdadeiro karatê-do deve necessariamente estar ao alcance de todos os tipos de pessoas em qualquer lugar do mundo, não importa a idade. E só porque é um caminho para o cultivo espiritual, isso certamente não significa que os seus praticantes devam tornar-se excessivamente religiosos ou solenes demais. O próprio mestre Funakoshi era uma pessoa muito aberta e acessível. Se ainda estivesse vivo, sem dúvida recomendaria que “qualquer aprendiz do karatê, por mais ocupado que esteja no trabalho ou na escola, [deve] manter o espírito do karatê com o maior rigor possível, da maneira mais natural e relaxada possível, e por quanto tempo for possível”. Conforme declara o nono princípio, “O karatê é uma atividade vitalícia”.


OS 20 PRINCÍPIOS

1.

Karate começa e acaba com respeito
一、空手道は礼に始まり礼に終る事を忘るな
Hitotsu, karate-do wa rei ni hajimari rei ni owaru koto o wasuru na

2.

Não existe primeiro ataque no karate
一、空手に先手なし
Hitotsu, karate ni sente nashi

3.

Karate está do lado da justiça
一、空手は義の補け
Hitotsu, karate wa, gi no tasuke

4.

Conhece-te antes de conheceres os outros
一、先づ自己を知れ而して他を知れ
Hitotsu, mazu onore o shire, shikashite ta o shire

5.

A mente acima da técnica
一、技術より心術
Hitotsu, gijitsu yori shinjitsu

6.

A mente deve ficar livre
一、心は放たん事を要す
Hitotsu, kokoro wa hanatan koto o yosu

7.

Calamidade nasce do descuido
一、禍は懈怠に生ず
Hitotsu, wazawai wa ketai ni seizu

8.

Karate vai além do dojo
一、道場のみの空手と思ふな
Hitotsu, dojo nomino karate to omou na

9.

Karate é uma busca vitalícia
一、空手の修業は一生である
Hitotsu, karate-do no shugyo wa isssho de aru

10.

Aplica o karate em tudo. Aí reside a sua beleza
一、凡ゆるものを空手化せよ其処に妙味あり
Hitotsu, ara yuru mono o karateka seyo; sokoni myomi ari

11.

Karate é como água a ferver; sem calor volta a ficar tépida
一、空手は湯の如し絶えず熱度を与えざれば元の水に還る
Hitotsu, karate Wa Yu No Gotoku Taezu Netsu O Atae Zareba Motono Mizuni Kaeru

12.

Não penses em ganhar. Pensa antes em não perder
一、勝つ考は持つな負けぬ考は必要
Hitotsu, katsu kangae wa motsuna; makenu kangae wa hitsuyo

13.

Ajusta-te ao teu oponente
一、敵に因って轉化せよ
Hitotsu, tekki ni yotte tenka seyo

14.

O resultado da batalha depende de como lidas com relaxamento e força
一、戦は虚実の操縦如何に在り
Hitotsu, tattakai wa kyo-jitsu no soju ikan ni ari

15.

Pensa nas tuas mãos e pés como espadas
一、人の手足を剣と思へ
Hitotsu, hi to no te-ashi wa ken to omoe

16.

Quando deixas a segurança da casa enfrentas milhões de inimigos
一、男子門を出づれば百万の敵あり
Hitotsu, danshi mon o izureba hyakuman no teki ari

17.

Posturas formais são para principiantes; depois deve-se estar naturalmente
一、構は初心者に後は自然体
Hitotsu, kamae wa shoshinsha ni atowa shizentai

18.

Kata deve ser sempre praticada correctamente: combate real é diferente
一、形は正しく実戦は別物
Hitotsu, kata wa tadashiku, jisen wa betsumono

19.

Não esquecer a aplicação ou remoção de poder, a extensão ou contracção do corpo, a aplicação rápida e descontraída da técnica
一、力の強弱体の伸縮技の緩急を忘るな
Hitotsu, chikara no kyojaku tai no shinshuku waza no kankyu

20.

Sê cuidadoso, diligente e engenhoso na tua busca do caminho
一、常に思念工夫せよ
Hitotsu, tsune ni shinen ku fu seyo

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