Retiro/Curso Vipassana 10 dias – Minha experiência

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Vipassana significa ver as coisas como realmente são, é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia. Foi ensinado por Buda há mais de 2500 anos.

Em Fevereiro de 2012 fiz o 1º retiro de Vipassana da tradição de Sayagyi U Ba Khin, ensinado por S.N. Goenka. Este é o relato da minha experiência.

O retiro/curso é conduzido por um professor e uma professora, assistentes do Goenka que servem essencialmente para tirar dúvidas, aconselhamento e orientar o retiro. Mas as instruções e palestras são dadas por Goenka em áudio.

Este retiro ocorreu no “Monte Mariposa” na serra de Tavira. As instalações são bastante boas. São compostas pelo edifício principal no cimo do cerro e abaixo do cerro ficam várias casinhas, um pavilhão com uma fachada envidraçada (tapada para o retiro), uma cozinha e refeitório estilo Thai (não a utilizamos) e duas casas de banho. Todas essas estruturas, excepto o edifício principal, são de madeira, tem também mais uma casa tipo tenda.

Quem fica no edifício principal talvez tenha um pouco mais de conforto, principalmente no Inverno, é mais quente e tem tudo lá – os quartos, WC, refeitório, hall de meditação, etc.

A mim calhou-me ficar no pavilhão com mais 7 pessoas. Pessoalmente até preferi mais assim do que ficar no edifício principal, não tem tanto conforto mas é mais interessante, está-se mais em contacto com a natureza.


Video com imagens do “Monte Mariposa”. (não são imagens referentes ao que ocorreu neste retiro)

No dia 0 é feito o check-in ao fim da tarde, podemos lanchar e depois também comer uma sopa. No fim do dia ouvimos uma palestra e o retiro se inicia. Após o início não podemos mais falar com os companheiros. É para ser observado o silêncio total. Apenas no último dia (10º) o silêncio é quebrado. Excepcionalmente podemos falar com o servidor líder por algum motivo relacionado com a organização e caso seja relevante. Também podemos falar sempre com os professores no horário apropriado.

Os homens e as mulheres ficam em zonas separadas, apenas no hall de meditação estamos todos juntos mas sem nos misturamos, num lado ficam os homens, no outro as mulheres.

O silêncio e a separação entre homens e mulheres tem como objectivo proporcionar uma maior tranquilidade, foco apenas na meditação e evitar conflitos.

[HORÁRIO]

4:00 – Despertar
4:30-6:30 – Meditar na Sala de Meditação ou no seu quarto
6:30-8:00 – Pequeno-almoço
8:00-9:00 – MEDITAÇÃO DE GRUPO NA SALA DE MEDITAÇÃO
9:00-11:00 – Meditar na Sala de Meditação ou no seu quarto, segundo conselho do professor
11:00-12:00 – Almoço
12:00-13:00 – Descanso, e entrevistas com o professor
13:00-14:30 – Meditar na Sala de Meditação ou no seu quarto
14:30-15:30 – MEDITAÇÃO DE GRUPO NA SALA DE MEDITAÇÃO
15:30-17:00 – Meditar na Sala de Meditação ou no seu quarto, segundo conselho do professor
17:00-18:00 – Lanche e descanso
18:00-19:00 – MEDITAÇÃO DE GRUPO NA SALA DE MEDITAÇÃO
19:00-20:15 – Palestra do professor na sala de Meditação
20:15-21:00 – MEDITAÇÃO DE GRUPO NA SALA DE MEDITAÇÃO
21:00-21:30 – Período de perguntas na sala
21:30 – Recolher e apagar luzes

No Inverno e sob uma vaga de frio, valeu-nos a salamandra para nos aquecermos durante a noite. Fazia mesmo bastante frio!

Iniciávamos o dia às 4h da manhã enfrentando a noite gelada.

Depois de me levantar, com a ajuda da lanterna tinha de percorrer uns bons metros pelo mato até ao WC. O WC de madeira tem duas bacias no exterior e interiormente ficam duas retretes e dois duches individuais. Embora o interior seja fechado entra ar pelas grandes frestas do chão de madeira assim como por cima. Às 4h/4:30 da manhã, e com o frio que estava, só dava mesmo para dar uma urinada e lavar um pouco a cara com a água gelada. Depois é subir o cerro até ao edifício principal onde está o Hall de meditação.

Só na primeira noite dormi com o pijama, mas de manhã com o frio e com a vontade de ficar no quente da cama não apetece nada levantar despir e vestir. Por isso optei por acabar logo com a ronha e dormir quase vestido. Assim de manhã não tinha de despir o pijama e vestir a roupa, era só vestir o que faltava e o casaco. O gongo toca às 4h para nos levantarmos, mas como já dormia quase vestido e não perdia tempo a essa hora no WC, levantava-me às 4:30 quando tocava o gongo para seguir para a meditação.

Assim que tocava o gongo no minuto seguinte estava em pé em direcção ao WC e hall de meditação. Éramos oito no pavilhão, dois desistiram, dos que ficaram só eu e mais um é que nos levantávamos logo, o resto ficava na ronha…. O ideal é logo desde o inicio não nos habituarmos a fazer ronha… Tocou – Levantou!

Nesse e em algumas outros períodos não era obrigatório termos a prática de meditação no hall, podíamos meditar no quarto, eu no entanto optava por ir para o hall, a maioria que ficava no quarto ficava a dormir.

O inicio da sessão de meditação que inicia o dia começa com uns cânticos do Goenka, confirmo o que li em alguns relatos, o Goenka por vezes parece um sapo a coaxar, LOL. Mas gostei do ambiente criado. A seguir aos cânticos são dadas algumas instruções pelo Goenka em inglês e depois a tradução em português.

As quase 12 horas de meditação por dia foi duro. Nas semanas antes do retiro, como já estava à espera que fosse difícil tantas horas na mesma posição, comecei a fazer as minhas sessões de meditação na posição de lótus completo. Pensava eu, sendo essa a posição mais difícil, se conseguir ficar nessa posição por algum tempo, conseguiria ficar em qualquer outra posição por bastante tempo e iria facilitar-me o retiro. Teria sido uma boa estratégia mas se tivesse começado com bastante mais tempo de antecedência, é que provavelmente devido ao esforço que fiz, logo nos primeiros dias do retiro começou a doer-me algumas zonas das pernas, algumas mazelas que tinha devido à prática desportiva também contribuíram para isso. De certa forma isso dificultou-me um pouco a concentração na meditação e nos últimos dias já me estava a custar bastante, no entanto foi superável, e por vezes as coisas mais difíceis são as que trazem mais benefícios e crescimento.

Quem quer pode marcar uma ou mais entrevistas privadas com o professor por volta da hora do almoço, marquei uma para o 6º dia para falar sobre isso e tirar uma ou outra dúvida. No final de cada dia também podemos tirar dúvidas com o professor, esclareci algumas dúvidas no 7º dia.

Com o treino a tendência é que os próximos retiros se vão tornando mais fáceis, com um melhor aproveitamento e com mais e melhores resultados, mas um retiro também tem de ter sempre alguma dificuldade, não é propriamente para relaxar e passar férias…

A comida foi fantástica, o pequeno almoço era delicioso!! Normalmente eu usava mingau de aveia como base para o pequeno almoço e adicionava cereais e salada de frutas cozida, depois adicionava ainda um pouco de mel. Ficava uma delicia! Também cheguei a usar iogurte natural em vez de mingau.

Como não há jantar e ao lanche só podíamos comer fruta e leite, eu cortava a fruta aos pedaços e fazia um prato com as frutas e leite de soja, depois ainda adicionava cacau e mel, bebia também uma caneca de leite de soja com cacau ou com uma mistura de aveia em pó e café. Com esses ingredientes tentava fazer do lanche quase um jantar 🙂 de referir que esta não é uma prática muito aconselhada… Os antigos alunos podem apenas beber chá ou uma limonada, uma vez que não é permitido comer nada após o meio-dia, excepto se por algum motivo em particular o professor autorizar. O almoço também era bastante bom. A comida é vegetariana.

No geral a comida é feita a partir de receitas para todos os cursos do Goenka, embora também sejam utilizados produtos associados à cultura onde o retiro é realizado, por exemplo no nosso país temos pão, azeite, etc.

A refeição também pode ficar melhor ou pior consoante quem cozinha, houve uns retiros anteriores que me disseram que a comida não tinha ficado lá grande coisa, mas neste a cozinheira foi fantástica!

Ao pequeno almoço, a partir de certo dia também começámos a aproveitar a lareira para fazer as nossas próprias torradas!

Eu como sou magro por natureza e faço Karate-Do e ultimamente também tenho feito BTT, não me posso dar ao lucho de emagrecer mais. Por isso estava com receio de a comida não ser suficiente e fui munido com bastantes barras de cereais :D, mas só comi uma já mesmo no final do retiro, e é claro que isso é algo que não se deve fazer.

As palestras são dadas na sala de meditação ao final de cada dia. Cada um normalmente fica sentado nas almofadas ou no Zafu, mas por vezes alguns de nós nos encostávamos à parede (embora não seja aconselhado). Eu normalmente ficava mesmo no meu local de meditação, mas no 7º dia fui-me encostar um pouco. No 8º dia fiz o mesmo, acontece que mesmo ao meu lado estava uma cadeira vazia, talvez por algum problema nas costas a pessoa que aí se senta tem autorização, mas na palestra essa pessoa não estava, possivelmente porque já não era o primeiro retiro e então não precisava de ouvir a palestra. Eu com a cadeira mesmo ao lado de mim… o que é que eu pensei? “Vou-me sentar nela… mas acho que não deve ser uma atitude lá muito correcta, é injusto para com os outros colegas que não estão em cadeiras… hummm… mas tantas horas na mesma posição, pelo menos na palestra podia-me sentar… os meus colegas aproveitam outro dia” E sentei-me na cadeira… 😀 Mas o professor – e com toda a razão – mandou o manager do grupo masculino ir me dizer que cada um tinha de se sentar no seu lugar!! Ehhheh. E foi muito bem dito, não foi uma atitude lá muito correcta da minha parte!

Nos restantes dias, para me redimir, nem sequer me encostei à parede, nem fiquei meio encostado na almofada como a maioria, meti-me na posição de meditação e só me movimentava quando era mesmo necessário. Esta é a atitude correcta para assistir à palestra.

De noite e de madrugada sem a poluição das cidades e o reflexo das luzes da cidade, dava para apreciar um céu estrelado magnifico com uma lua cheia grandiosa! Num ou outro dia, mesmo com o frio que se fazia sentir, ia para fora do edifício e terminava o pequeno almoço a beber um chá quente com o nascer do sol no horizonte.

Também deu para conhecer pessoas interessantes! Apareceu de tudo… Deste estilo hippie; uns mais certinhos; um tipo bastante porreiro que começou no retiro a primeira etapa de ir viajando só com uma mochila às costas por alguns países, ficando em herdades temporariamente a trabalhar; um que segundo ele estava à mais de um ano sem comer e que só se alimentava da energia prana (no retiro teve de comer porque não é permitido jejum); um que dizia que muitas pessoas de um planeta qualquer estavam a renascer na terra, que os golfinhos são espiritualmente superiores aos humanos; um que dizia sentir a energia e pensamentos das pessoas, enfim… tinha um holandês, espanhóis e mais alguns estrangeiros.

Como referi o retiro é em silencio, só pode haver conversas no inicio e no final.

Na manhã do dia de saída (11º dia) também tivemos a limpar e a arrumar o local, trabalho voluntário, não é obrigatório para quem não é servidor, mas toda a ajuda à organização é sempre importante.

Estes foram os momentos mais marcantes do retiro, houve dificuldades e alturas de maior fraqueza, mas no geral foi um retiro feito com bastante motivação e com momentos fantásticos. Foi uma experiência muito enriquecedora.

Há alguns anos atrás li na revista Época online a reportagem “O Inimigo sou eu” [completo]. Nessa reportagem a repórter Eliane Brum descreve a sua experiência ao fazer este retiro.

A reportagem está muito boa, aconselho vivamente a leitura!

Deixo aqui algumas citações:

“Esta é a história de uma aventura que desafia os limites do corpo e da mente. A repórter de ÉPOCA fez um retiro de meditação, no interior do Rio de Janeiro. Foram dez dias sem falar, ler ou escrever, mais de uma centena de horas imóvel.”

“A escuridão era absoluta. Tive medo de ficar presa dentro de mim. Meu coração disparou. Achei que fosse morrer.”

“Descobri que um universo complexo me habitava, com manifestações novas e desconhecidas. Foi como passar a vida olhando o oceano da praia e, de repente, mergulhar.”

“Nessa guerra no território do corpo, o inimigo era eu. Parar de sofrer dependia apenas de mim. E eu tinha acabado de descobrir que, ao contrário do que eu acreditara até então, eu não era resistente à dor. Sempre fui orgulhosa demais para admitir que sentia dor, porque sempre confundi fragilidade com fracasso. Chorei de novo. Dessa vez, porque percebi que essa era a luta mais difícil.”

“Sempre tive uma enorme dificuldade de aceitar a realidade. Por um lado, isso é ótimo, porque faz andar, criar, transformar. Por outro, há momentos em que não é possível mudar a realidade, só nos resta aceitá-la. Mas, para isso, é preciso aceitar algo ainda mais difícil: nossas limitações. As minhas, no caso. Sempre me debati muito contra aquilo que não podia mudar. Minha onipotência chegava ao extremo de pensar que, se não consegui mudar algo, é porque não fiz o suficiente. Eu sabia muito sobre brigar para mudar alguma coisa, mas pouco sobre aceitar o que não podia mudar.”

“No oitavo dia, na minha vez de fazer perguntas ao professor, ele disse: “Aceita quem você é”. Eu fui chorar no meio do mato. Era difícil olhar para mim mesma sem nenhuma máscara. O que ele disse pode ser uma obviedade, mas soou como uma redenção, porque eu compreendia não apenas intelectualmente, mas na prática. Eu estava havia oito dias isolada dentro de mim, nos últimos três sentira dores terríveis, tinha perdido 3 quilos e encarava todos os meus demônios no olho. Era uma situação-limite.”

“Percebo imediatamente quando estou vivendo algo especial. E descarto os acontecimentos desagradáveis no minuto seguinte. Minha vida ficou mais larga.”

“Esta reportagem é apenas o relato de uma experiência radical um pouco diferente do que estamos acostumados a entender como radical.”

“Este é apenas o relato de uma viagem para um lugar bem exótico – meu corpo. Você poderia estar lendo sobre uma circunavegação da Antártica ou a escalada da parede sul do Aconcágua. Mas esta é uma expedição de dez dias, mais de cem horas de olhos fechados, sem sair do lugar e sempre para dentro. Ao avesso de qualquer outra aventura, quanto mais longe, mais perto estava de mim. Neste mundo em que todas as geografias já foram devassadas – e a maioria delas devastada – talvez este seja um desafio mais real.”

Os retiros de Goenka também têm sido ministrados em algumas penitenciárias, tendo resultados bastante positivos! Destaco este documentário: Tempo de Espera, Tempo de Vipassana, nesse post pode assistir o documentário completo. Aqui fica o trailer:

 

Sites oficiais dos retiros/cursos de Vipassana ensinados por Goenka:
PT: http://www.pt.dhamma.org/ | http://www.dhamma.org/pt
INT: http://www.dhamma.org/

Os antigos alunos têm acesso a cursos de duração mais curta, de duração mais longa, e outro tipo de cursos.

Ricardo Sousa
Fevereiro de 2012

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