[Filme] Crash / Colisão

Vídeo Publicado em Atualizado em

O Artigo que se segue é uma transcrição de um post do blog Para Ser Zen, infelizmente esse blog já não existe, segue por isso a transcrição na integra:

Pode um filme quase sem nenhum aspecto religioso ser muito espiritualizado? Crash – no limite é assim, e me lembra uma frase de Joseph Campbell, em que ele diz que a religião pode muitas vezes afastar-nos da experiência espiritual…

Há poucas menções sobre religião no filme… As pequeninas imagens de São Cristóvão… Uma tatuagem de cruz, e algumas outras cruzes entrevistas ou sugeridas… Uma personagem dita budista… A menção de um anjo… Alguns presépios. E é Natal.

E a meu ver, este é um dos filmes não só mais espiritualizados, mas dos mais budistas que pode haver. Na maneira como nenhuma personagem sustenta um único lado até o final do filme, enviando sinais contraditórios… Na maneira como todas elas se apresentam como Budas umas no caminho das outras, e na maneira como esses caminhos estão intricadamente relacionados… Na maneira como o medo, o apego e principalmente a raiva são mostradas como causa do sofrimento… Na maneira como apresenta a lei do carma em ação, com todas as suas infinitas escolhas a cada passo, e suas correspondentes conseqüências nem sempre previsíveis… Ações maléficas que quando conduzidas como uma chance de redenção resultam em algum bem, como o ladrão que resolve libertar o “precioso conteúdo” de um furgão que rouba após ter atropelado o seu dono… Ações benéficas que resultam no que poderíamos chamar de malefício, quando uma carona resulta em morte… Mas nada se sustenta, nada pode ser classificado, dividido, separado,“maniqueisado”: duas armas disparam no filme — uma mata, a outra não.

Há o policial “ruim” que enfim salva uma vida, enquanto que o policial “bom” tira outra… Um ganha a capacidade de ajudar o próximo que havia perdido, e redimir-se com uma das pessoas a quem molestou; o bom policial perde sua máscara no espelho e se confronta com a própria sombra… Enquanto trabalham em dupla, o policial “ruim” faz o papel da sombra do “bom”, e tenta mostrá-la ao outro, insistentemente, até o último momento de separação dos dois… O que se apresenta como sombra e o que não quer encará-la, ambos se aferram a seus papéis até que, enfim separados, dirigindo carros diferentes, o policial “ruim” se livra de seu papel de sombra e em pleno dia encontra a redenção ao salvar a mesma pessoa que antes fora sua vítima… E então arde a primeira fogueira do filme. O “bom” policial, depois de inúmeras chances de auto-conhecimento e reconhecimento ao longo do dia, aferrado ao seu papel mesmo sem o uniforme oficial, vai encontrar afinal dentro da noite escura e deserta sua própria sombra, e tem de encará-la da maneira mais dramática… E arde para ele a outra fogueira do filme. O que é que arde nessas fogueiras?…

O tempo todo as personagens perdem o que lhes é mais caro. Não é só o policial “bom” que perde a ilusão de sua verdade pessoal… Há o comerciante que perde sua loja, e em seguida perde também seu ódio ao tentar matar (e só não mata por uma escolha anterior de sua filha) e encontra a paz através de um firishte (um anjo), que é a menininha que passa do medo para o destemor num “passe de mágica”; menininha esta que é o maior tesouro do pai, um chaveiro, que por um momento a perde para sempre, fortemente agarrado a ela… Há o pai do policial “ruim”, que perdeu tudo menos o sofrimento, a doença, e o próprio filho… O filme fala muito de apego, da lição de perdermos aquilo que nós é mais caro… Mas há sempre um bodhisattva lá, disposto a tornar a perda uma lição maravilhosa… Há o detetive de polícia que perde sua honestidade, e perde também seu orgulho e boa imagem, ao perder o próprio irmão, que por sua vez exercia para ele o papel de sombra: o errado e imperfeito irmão delinqüente do defensor da justiça… Por fim no luto familiar ele perde também a mãe, e com silêncio resignado perde seu papel de bom filho caridoso, para restituir à mulher a boa imagem de seu irmão ladrão, que fica com o mérito de um gesto filial carinhoso…

Há sempre um bodhisattva presente, permeando as situações, e em sua infinita compaixão dando às pessoas a chance de se redimir… O ladrão raivoso, que liberta os imigrantes depois de ser liberado de seu próprio preconceito racial e sua duvidosa “ética de crimes” pela vítima de um de seus assaltos… O ladrão compreensivo, o próprio bodhisattva, que através da oferenda de sua morte com olhos abertos, encarando seu agressor e segurando um santo entre os dedos, joga luz sobre o policial bonzinho e o toca profundamente…

Há tantas personagens… Não vou comentar todas elas… Mas há duas que me chamam mais a atenção.
O chinês vítima de atropelamento é uma personagem incrível e complexa… É fácil sentir “pena” quando do seu atropelamento, e ficar indignado ou revoltado com o ladrão que displicentemente o atropelou, pois parece ser uma tremenda injustiça com um cidadão inocente e desavisado — mas como transformar isso em compaixão quando o chinês atropelado se revela um traficante de pessoas… Pessoas estas que ao final são libertadas por causa do atropelamento que antes se condenava, quando afinal o ladrão escolhe a liberdade dos imigrantes ao invés do dinheiro que receberia por suas cabeças… E o traficante atropelado, por estar imobilizado no hospital, deixa de ter no seu carma todas essas pessoas que por sua condução seriam escravizadas.

A dona de casa ricaça, papel de poucas cenas, é no entanto para mim o maior símbolo do filme, quando ela relativiza toda a sua vida glamourosa depois de uma queda, e percebe que a empregada doméstica que a irrita, a qual considera uma intrusa em sua própria casa, é na verdade o seu anjo da guarda…
E o filme termina sobrevoando uma cruz, num entroncamento de Los Angeles…
Enfim… Merecidos os Oscar de melhor filme e melhor roteiro para Crash – no limite. A meu ver é premiar a própria vida, uma visão espiritualizada dela, e a potência que tem a espiritualidade de conduzir a vida para o seu melhor.


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